Advogado de formação e uma figuras centrais da Alemanha reunificada, Wolfgang Schäuble deixa um legado político de mais de cinco décadas, tendo participado em processos marcantes como a reunificação ou a gestão da crise financeira de 2008-2012. Internamente, os alemães recordá-lo-ão em vários papéis, mais notavelmente ministro das Finanças, mas também do Interior e presidente do Reichstag, mas a imagem mais marcante para o resto da Europa será o da austeridade imposta pela Alemanha.
Nascido em Friburgo a 18 de setembro de 1942, em plena II Guerra Mundial, Schäuble foi criado numa família já envolvida na política, dado o papel do seu pai na criação do Partido Popular Social Cristão de Baden. Formado em Direito e Economia pelas Universidades de Friburgo e Hamburgo, rapidamente se envolveu na política do estado, tendo-se juntado à CDU em 1965.
Desde aí, Schäuble tornou-se uma figura da cena política nacional germânica. Tornou-se membro do parlamento em 1972, tendo servido até à sua morte esta terça-feira, chegando a presidente do organismo, mas os seus papéis mais relevantes foram no Governo alemão em duas fases críticas da Alemanha moderna: o processo de reunificação e a crise das dívidas soberanas.
Após ter sido ministro federal dos Assuntos Especiais entre 1984 e 1989, Schäuble assumiu a pasta da Administração Interna, tendo liderado as negociações do lado da Alemanha Federal com os seus homólogos de leste. Este processo garantiu-lhe uma grande popularidade no país, sendo frequentemente visto como o principal candidato a ocupar o cargo de chanceler após o seu mandato como ministro, uma posição que não chegou a ocupar.
Apesar desta crescente popularidade, poucos dias após a assinatura do tratado para a reunificação da Alemanha, Schäuble foi baleado por na coluna e maxilar, tendo ficado numa cadeira de rodas desde então.
Alguns anos mais tarde, e já como líder da CDU, um escândalo sobre financiamento partidário em que Schäuble havia recebido 100 mil marcos de um traficante de armas levou à sua saída, tendo sido substituído por Angela Merkel. A futura chanceler alemã acabaria por contar fortemente com o seu apoio, primeiro como ministro federal do Interior e, depois e mais notoriamente, como ministro das Finanças.
Foi neste papel que negociou com a maioria conservadora três pacotes de resgate à Grécia, de forma a manter a coesão da zona euro. Em troca, Berlim impôs uma pesada austeridade a Atenas, uma estratégia desenhada por Schäuble e que lhe valeu o descontentamento e rejeição pelos gregos. Também a relação com Portugal teve percalços na altura da crise soberana, quando o então primeiro-ministro José Sócrates o apelidou de “estupor” e “filho da mãe” a propósito das medidas e timings de correção orçamental pedidos a Portugal.
Apesar da popularidade interna, a perceção do sul da Europa como o rosto da austeridade valeu-lhe fortes críticas. Se a disciplina orçamental era elogiada por alguns, muitos viam aqui uma forma de obter ganhos políticos, sobretudo à custa de cortes fiscais considerados eleitoralistas.
Outra fonte recorrente de crítica era a postura quase militarista de Schäuble, adepto de políticas de lei e ordem e um apoiante da invasão do Iraque. Encarregado da pasta dos assuntos internos aquando da realização do Mundial de futebol em 2006, o agora falecido político defendeu uma reforma constitucional que permitisse o uso de forças militares em assuntos domésticos. Um ano mais tarde, sugeriu que fosse permitido às forças de segurança executar terroristas ou suspeitos de simpatia por movimentos considerados terroristas, propondo ainda que fosse banido o uso de internet por estes indivíduos.
As acusações de excessiva preocupação com a segurança foram frequentemente aliadas de críticas por um alegado racismo, sobretudo no que respeita a muçulmanos ou árabes. O político alemão defendeu a publicação em massa de cartoons satíricos do profeta Maomé após os ataques ao Charlie Hebdo, em França, como forma de provocação sob o pretexto de exercício da liberdade de expressão, isto alguns anos depois de ter criticado a oposição alemã à invasão do Iraque sob pretextos falsos.





