Aliança Cuba-Venezuela enfraquece após prisão de Maduro

A ausência de Cuba no discurso da Venezuela na ONU
Pela primeira vez em duas décadas, Cuba não foi mencionada durante o pronunciamento de um representante da Venezuela na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas. A omissão ocorreu no recente discurso da presidente interina venezuelana, Delcy Rodríguez, marcando um momento crítico nas relações entre os dois países. A ausência da referência à Cuba Venezuela relação revela mudanças significativas no panorama geopolítico caribenho.
Durante pronunciamentos anteriores, os líderes venezuelanos mencionavam frequentemente Cuba. Hugo Chávez, falecido em 2013, chegou a declarar que os dois países eram "uma mesma nação" com "um mesmo governo". Em seu discurso na assembleia em 2009, Chávez citou Cuba 11 vezes, enquanto Nicolás Maduro mencionou o país 13 vezes em 2015. A ausência total de referências no discurso de Rodríguez representa uma ruptura significativa com essa tradição de décadas.
As origens da aliança estratégica
A proximidade entre Venezuela e Cuba iniciou-se quando Hugo Chávez chegou ao poder em 1999. O líder venezuelano estreitou os laços com Fidel Castro através de um acordo de venda de petróleo venezuelano à ilha em condições preferenciais. Em troca, Cuba enviaria profissionais para atuar em várias áreas, incluindo saúde, educação, cultura e esporte.
A presença cubana ganhou visibilidade principalmente através do programa social Barrio Adentro, que contava com milhares de médicos cubanos prestando atendimento básico às comunidades mais carentes da Venezuela. Essa iniciativa apresentava similaridades com o programa brasileiro Mais Médicos, inclusive gerando protestos de médicos locais contra a chegada dos colegas cubanos.
O papel dos agentes de segurança cubanos
Embora os médicos tenham sido o símbolo mais visível da cooperação, especialistas apontam que a atuação de agentes cubanos nos órgãos de segurança venezuelanos constituiu o principal diferencial da relação. A presença desses agentes, particularmente na área de contrainteligência, representava uma influência extraordinária na estrutura de poder venezuelano.
Conforme Frank Mora, professor de relações internacionais da Universidade Internacional da Flórida, após abril de 2002, Fidel Castro teria iniciado o envio de agentes de Cuba à Venezuela para proteger Chávez e prevenir conspirações nas Forças Armadas. Os agentes cubanos se infiltraram profundamente nas Forças Armadas e nos órgãos de segurança do Estado venezolano, participando e interferindo em todas as atividades de contrainteligência e repressão.
Cuba havia negado publicamente a presença de agentes de segurança durante anos. Contudo, durante a captura de Maduro em janeiro de 2026, quando os Estados Unidos prenderam o então presidente, morreram pelo menos 32 cubanos, entre eles integrantes das Forças Armadas Revolucionárias de Cuba (FAR) e do Ministério do Interior de Cuba. Entre os falecidos havia dois coronéis, um tenente-coronel, quatro majores e três capitães, indicando funções na segurança muito além de tarefas básicas.
Mudanças radicais pós-captura de Maduro
Após a operação americana em 3 de janeiro de 2026, com Delcy Rodríguez assumindo o governo da Venezuela, as relações sofreram transformações dramáticas. Os Estados Unidos assumiram o controle da venda de petróleo venezuelano e mantiveram suspenso o fornecimento desse insumo a Cuba, que já não recebia petróleo desde o fim de 2025 devido ao bloqueio marítimo imposto pelos americanos.
Segundos após a operação, Marco Rubio, secretário de Estado dos EUA, declarou que Cuba "basicamente tentou colonizar a Venezuela na área de segurança". Quase três semanas depois, Miguel Díaz-Canel, presidente de Cuba, afirmou ter conversado por telefone com Rodríguez, manifestando apoio e solidariedade, além de defender a continuação do fortalecimento das "históricas relações de irmandade e cooperação".
A "descubanização" dos órgãos de segurança
Evidências recentes indicam que agentes de segurança cubanos estão sendo retirados da Venezuela. Um site cubano informou que um avião da companhia aérea Cubana de Aviación havia feito pelo menos seis viagens entre Caracas e Havana, transportando militares feridos na operação americana. Com base na capacidade do veículo, estimou-se que cerca de 2.500 cubanos poderiam ter sido repatriados da Venezuela.
A agência de notícias Reuters publicou reportagem baseada em 11 fontes com conhecimento do assunto, afirmando que agentes de segurança e médicos cubanos estavam sendo retirados da Venezuela sob pressão dos EUA sobre Rodríguez. Algumas fontes informaram que funcionários cubanos haviam sido afastados de seus cargos na Direção Geral de Contrainteligência Militar (Dgcim), embora houvesse incerteza se estavam sendo expulsos, chamados de volta por Cuba ou partindo voluntariamente.
John Polga-Hecimovich, professor associado de ciência política da Academia Naval dos EUA, destaca que a "descubanização" dos órgãos de segurança venezuelano constitui uma prioridade para a inteligência americana, afirmando que "tudo indica que tiveram sucesso nessa tarefa".
A situação atual: nem aliados nem inimigos
O vice-ministro das Relações Exteriores de Cuba, Carlos Fernández de Cossío, descreveu a Venezuela como um país "amigo" em vez de "aliado" - reconhecimento oficial de que a "relação estratégica" se deteriorou. Essa declaração marcou a primeira admissão pública de enfraquecimento dos laços históricos construídos por Chávez e Fidel Castro.
A presença de médicos cubanos na Venezuela aparentemente mudou pouco. Investigação da ONG Archivo Cuba constatou que as missões médicas continuam funcionando em pelo menos 22 Estados venezolanos. Contudo, aumentou o número de médicos cubanos que abandonaram o programa para fugir para a Colômbia ou Guiana, ou que permaneciam escondidos na Venezuela.
A embaixada cubana segue ativa, porém não há registros públicos de encontros do embaixador com membros do núcleo de poder do governo, composto por Delcy Rodríguez, seu irmão Jorge Rodríguez (presidente da Assembleia Nacional) e Diosdado Cabello (ministro do Interior). As autoridades cubanas registraram encontros apenas com governadores, prefeitos, deputados e movimentos sociais.
Perspectivas futuras da relação bilateral
Apesar da mudança radical - que alguns ativistas cubanos chamaram de "traição" - o governo de Díaz-Canel não criticou publicamente Rodríguez. A reação mais contundente foi um comentário no Facebook do ministro da Economia e do Planejamento de Cuba, Joaquín Alonso Vázquez, sugerindo traição, embora a publicação tenha sido posteriormente ocultada.
Javier Corrales, professor de ciência política do Amherst College, acredita que Cuba sente falta do petróleo venezuelano mas não vê a Venezuela como inimiga. "Não acho que tenha havido uma ruptura que implique necessariamente hostilidade. Deve ter havido um choque inicial enorme, mas penso que eles avaliam que esse resultado não é tão ruim", afirma.
Nícmer Evans, cientista político venezuelano, destaca que Cuba historicamente procura preservar vínculos com aliados atuais e potenciais. "Eles sempre vão tentar manter a relação ou recuperá-la. Talvez não estejam conseguindo chegar agora ao núcleo de poder, mas não acho que tenham abandonado os vínculos com setores do chavismo", explica.
A estratégia cubana de manter portas abertas pode ser útil no cenário atual, onde uma mudança política na Venezuela não está garantida. Ambos os países parecem ganhar tempo e resistir até uma eventual mudança de governo em Washington, quando teriam oportunidade de restabelecer os laços históricos que caracterizaram décadas de aproximação e cooperação.



