Carioca eleito deputado na Flórida: trajetória de imigrante documentado

Primeira eleição de um brasileiro para a Assembleia Legislativa da Flórida
Felipe Sousa-Lazaballet conquistou um lugar histórico ao se tornar o primeiro brasileiro eleito deputado na Flórida pela legenda do Partido Democrata. Com 40 anos, o carioca venceu a candidata republicana Bonnie Jackson em uma região tradicionalmente ligada aos apoiadores do presidente Donald Trump, marcando um momento significativo na representação brasileira nos Estados Unidos.
A eleição de Felipe representa não apenas uma vitória pessoal, mas um reconhecimento da mobilização comunitária e do engajamento político de imigrantes documentados que buscam representação nas instituições estaduais norte-americanas.
Uma história de superação desde a infância
Nascido no Rio de Janeiro em 1986, Felipe Sousa-Lazaballet cresceu em Santa Cruz da Serra, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, em condições de extrema pobreza. A casa onde passou sua infância não possuía janelas, e durante as chuvas a família improvisava com plástico para evitar que a água invadisse o imóvel. Sua mãe, natural do Ceará, trabalhava em múltiplos empregos simultaneamente para garantir o sustento dos filhos.
"Eu cresci numa família muito humilde. A minha mãe era empregada doméstica e trabalhava três empregos, de 5h da manhã até meia-noite, quase todos os dias. Ela se sacrificou muito. A gente não tinha o suficiente pra ter uma vida boa. Inclusive, a casa que eu morava na época não tinha nem janela", recordou durante entrevista sobre sua trajetória pessoal.
Migração aos 14 anos e busca por oportunidades
Aos 14 anos, Felipe deixou o Brasil em busca de oportunidades melhores nos Estados Unidos, onde sua irmã o esperava. A adaptação inicial foi desafiadora, exigindo que trabalhasse durante a noite para custear seus estudos universitários. Essas experiências como imigrante documentado moldaram suas convicções políticas e o aproximaram do ativismo social.
A condição de imigrante documentado e sua identidade como membro da comunidade LGBT+ geraram sentimentos de marginalização que o impulsionaram a buscar mudanças por meio da ação política e do engajamento social. "Eu me senti injustiçado, marginalizado por ser imigrante documentado, por ser parte da comunidade LGBT+. E aí foi quando eu entendi que eu poderia fazer parte de um movimento social que criava mudanças sociais", explicou.
Ativismo e reconhecimento nacional
Em 2010, aos 24 anos, Felipe percorreu mais de dois mil quilômetros a pé, caminhando de Miami até Washington D.C., em uma ação para conscientizar a população sobre as dificuldades enfrentadas por jovens imigrantes nos Estados Unidos. Dois anos após essa mobilização, recebeu uma permissão temporária de permanência através do programa federal DACA (Deferred Action for Childhood Arrivals).
O DACA foi um programa criado durante o governo de Barack Obama para oferecer proteção temporária contra deportação a imigrantes com até 31 anos que haviam entrado nos EUA antes dos 16 anos, concedendo também autorização para trabalho legal. Em 2021, Felipe obteve sua cidadania americana, consolidando sua integração ao país.
Vida profissional e mobilização na campanha
Atualmente, Felipe Sousa-Lazaballet atua como diretor-executivo de uma organização não-governamental que oferece assistência a aproximadamente 35 mil imigrantes. Em 2020, casou-se com Luis Sousa-Lazaballet, consolidando sua vida pessoal nos Estados Unidos.
Durante a campanha para deputado na Flórida, Felipe dedicou-se intensamente à mobilização eleitoral. A estratégia incluiu visitas a dezenas de milhares de residências e contatos telefônicos para incentivar a participação no processo eleitoral. "Chegamos a tocar em 42 mil portas, ou seja, porta a porta. Ligamos para 20 mil pessoas no último fim de semana para incentivá-las a sair e a votar", informou sobre seu esforço de campanha.
Propostas de governo e visão política
Como candidato democrata, Felipe defendeu uma agenda focada em questões sociais relevantes para sua comunidade. Suas propostas incluem ampliação da oferta de moradias acessíveis, combate ao aumento do custo de vida e melhoria no acesso à saúde. Essas prioridades refletem sua experiência pessoal e sua compreensão das dificuldades enfrentadas por populações vulneráveis.
Contexto mais amplo: outros brasileiros eleitos deputados estaduais
A eleição de Felipe Sousa-Lazaballet não foi um caso isolado. Nas mesmas eleições midterm, seis outros brasileiros conquistaram cargos como deputados estaduais em diferentes estados norte-americanos. Elaine Marzola, também carioca, foi eleita; enquanto Farley Santos, Priscila Sousa e Rita Mendes conquistaram cadeiras por Minas Gerais; Danillo Sena representará Pernambuco; e Lorena Betts foi eleita por Mato Grosso.
Essas eleições, conhecidas como midterms, ocorrem a cada quatro anos nos Estados Unidos, entre os pleitos presidenciais. Nelas, os eleitores escolhem membros do Congresso, governadores e deputados estaduais, dependendo de cada estado.
Reflexão sobre mobilização coletiva e mudança social
Para Felipe, sua vitória como deputado na Flórida representa o resultado de um esforço coletivo e do poder transformador da participação popular. "Eu acho que o que eu aprendi desde sempre foi que, quando pessoas comuns decidem criar mudanças sociais e se juntam, se organizam e estão realmente enraizadas no amor e na justiça, tudo é possível", afirmou em reflexão sobre sua trajetória.
A história de Felipe Sousa-Lazaballet ilustra como experiências de adversidade podem converter-se em motivação para ação política e transformação social, servindo como inspiração para imigrantes documentados que buscam voz nas instituições democráticas norte-americanas.




