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Chilena desaparecida na ditadura Pinochet é encontrada viva

Chilena desaparecida na ditadura Pinochet é encontrada viva
Imagem: g1.globo.com. Uso informativo; os direitos pertencem ao seu titular.

Uma história que desafia meio século de silêncio

A chilena desaparecida na ditadura Pinochet, Bernarda Rosalba Vera Contardo, ressurge viva na Argentina, encerrando um dos casos mais intrigantes relacionados aos desaparecimentos forçados da era Pinochet. Aos 80 anos, a mulher que se acreditava estar morta há aproximadamente 50 anos vive tranquilamente em Miramar, na província de Buenos Aires, revelando uma narrativa muito diferente daquela documentada oficialmente pelas autoridades chilenas.

A versão oficial e o Relatório Rettig

Em 1973, Bernarda Vera tinha apenas 27 anos e trabalhava como professora em uma escola pública de Puerto Fuy, no Complexo Madeireiro e Florestal Panguipulli, na região de Los Ríos. Naquela época, era uma militante política ativa vinculada ao Movimento de Esquerda Revolucionário (MIR) e ao Movimento Camponês Revolucionário (MCR).

Segundo a documentação oficial, ela foi detida por militares em 10 de outubro de 1973, em Liquiñe, na pré-cordilheira dos Andes. O Relatório Rettig, publicado em 1991 pela Comissão da Verdade e Reconciliação, incluiu Bernarda Vera como uma das 1.469 vítimas de desaparecimento forçado no Chile, afirmando que teria sido executada na ponte de Villarrica sobre o rio Toltén, juntamente com 15 outras pessoas.

O relatório sustentava que agentes estatais "agiram divididos em vários grupos" que "tomaram o caminho de Villarrica e, na ponte sobre o rio Toltén, localizada na entrada da cidade, eles os mataram e atiraram seus corpos na água." Seus pais, que haviam testemunhado perante a comissão sobre o desaparecimento, deixaram registro do ocorrido, estabelecendo a versão que permaneceria oficial durante 35 anos.

A verdade alternativa: fuga para as montanhas

Décadas depois, documentos arquivados no Museu de Neltume revelaram uma narrativa distinta. José Manuel Bravo, ex-membro do MIR que conhecia Bernarda Vera pelo pseudônimo "Anita", testemunhou que um grande contingente de militantes conseguiu escapar dos militares em outubro de 1973 e fugiu para as montanhas.

No seu livro "De Carranco a Carrán: las tomas que cambiaron la historia", publicado em 2012, Bravo revela que permaneceram junto a Bernarda Vera nas montanhas até dezembro de 1973, dois meses após a suposta detenção. Posteriormente, acredita-se que ela tenha conseguido escapar clandestinamente do Chile para a Argentina com ajuda de Svante Grände, um membro sueco do MIR.

Conforme registros da imprensa local, Bernarda Vera saiu da Argentina com seu marido argentino e um filho recém-nascido com destino à Suécia. Em 1978, recebeu seu primeiro visto de residência naquele país europeu. Na Suécia, ela reconstruiu sua vida, teve mais dois filhos e obteve a cidadania sueca em 1984, retornando à Argentina no final da década de 1990.

O reencontro: confirmação por DNA

Em meados do ano anterior, a emissora de televisão Chilevisión localizou Bernarda Vera na praia de Miramar. A descoberta levou a testes científicos para confirmar sua identidade. O relatório pericial de DNA, ordenado pelo ministro extraordinário chileno para causas relacionadas aos direitos humanos, Álvaro Mesa Latorre, confirmou conclusivamente que se tratava da mesma pessoa.

Os antecedentes científicos, correspondentes ao perfil genético e às amostras dos seus familiares disponíveis no Banco Genético de Familiares de Prisioneiros e Executados Políticos do Serviço Médico Legal do Chile, determinaram uma probabilidade de identificação superior a 99,9999%, segundo a Justiça chilena. Fontes do Poder Judiciário declaram que ela concordou voluntariamente com o teste, realizado por meio de um tribunal de Mar del Plata, na Argentina.

A reação da filha deixada para trás

A filha de Bernarda Vera, que tinha apenas cinco anos em 1973, passou décadas sem informações sobre o paradeiro de sua mãe. Com 58 anos atualmente, ela não soube da sobrevivência de sua mãe até o momento em que equipes de jornalismo contataram-na com a notícia do reencontro. Segundo a jornalista Florencia Valenzuela, que conduziu a reportagem, a filha manifestou incredulidade extrema.

"Ela tem certeza de que, se sua mãe estivesse viva, teria entrado em contato com ela," afirmou Valenzuela. A filha participou de processos judiciais anteriores, onde declarou nunca mais ter mantido contato com sua mãe desde 1973. O advogado Vladimir Riesco, que apresentou ação judicial sobre o desaparecimento em 2009, ressaltou que a filha "sempre agiu de boa-fé, pois não tinha antecedentes e só sabia o que estava no Relatório Rettig."

Implicações financeiras e questões de responsabilidade

A confirmação de que Bernarda Vera não é uma prisioneira desaparecida gerou controvérsias políticas significativas. A mãe de Vera recebeu em vida uma pensão de reparação, e sua filha também recebe benefícios como familiar de vítima de violações de direitos humanos. Deputados apoiadores do presidente José Antonio Kast exigiram que o Estado recupere esses recursos e identifique os responsáveis.

A ação judicial sobre o desaparecimento foi aberta em 2009, quando o Programa de Direitos Humanos do Ministério do Interior apresentou queixa formal. O processo foi temporariamente arquivado em 2014 quando não se conseguiu comprovar as circunstâncias do desaparecimento.

Falhas administrativas e responsabilidades governamentais

A reportagem revelou que diversas autoridades estatais tiveram conhecimento de incongruências no caso por anos sem agir com diligência apropriada. O ex-policial Sandro Gaete, que fez parte do Plano Nacional de Busca criado pelo ex-presidente Gabriel Boric, renunciou e denunciou que as autoridades governamentais contavam com evidências desde 2024 e não as levaram à Justiça.

Segundo sua denúncia, o Estado chileno possuía informações remontando a 2007. O governo de Boric afirmou ter enviado os antecedentes oportunamente ao ministro Álvaro Mesa, que abriu investigação culminando na resposta definitiva. O governo atual informou que solicitará investigações sumárias para determinar responsabilidades administrativas e notificará o Conselho de Defesa do Estado para ações judiciais.

O desejo de paz e os questionamentos pendentes

Quando as equipes de jornalismo abordaram Bernarda Vera, ela conseguiu evitar as câmeras. Porém, seu filho Maximiliano conversou com jornalistas longe do microfone, oferecendo perspectivas sobre os sentimentos maternos. "Ela diz que sempre imaginou que este momento chegaria, que alguém a iria encontrar. Ela não irá renunciar à vida que sempre levou, é uma mulher forte e não tem medo de nada," afirmou Valenzuela.

Bernarda Vera deixou claro que não deseja revisitar seu passado e que busca apenas viver uma existência pacífica. Seu filho reafirmou esse desejo, enfatizando que ela simplesmente quer "viver uma vida em paz", longe do escrutínio público e das complicações políticas que cercam seu caso.

O caso de Bernarda Vera permanece como testemunho da complexidade dos registros históricos durante a ditadura chilena de Pinochet, evidenciando como narrativas oficiais podem divergir radicalmente das realidades individuais. Com aproximadamente 40 mil vítimas resultantes da ditadura entre desaparecidos, execuções ilegais, tortura e prisioneiros políticos, sua história ressurge como um capítulo que desafia suposições estabelecidas e questiona procedimentos investigativos de longo prazo.

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