Cristovão Bastos e Mauro Senise gravam tributo a Ary Barroso

Novo álbum celebra o legado de Ary Barroso
O pianista carioca Cristovão Bastos e o saxofonista Mauro Senise uniram seus talentos para criar um projeto musical que homenageia o compositor e pianista mineiro Ary Barroso, um dos nomes mais importantes da história da música brasileira. O álbum intitulado 'É luxo só', que marca essa colaboração especial entre Ary Barroso e os dois instrumentistas, foi gravado em dois dias intensos nos estúdios da gravadora Biscoito Fino, localizada na cidade do Rio de Janeiro.
Processo de gravação e detalhes da produção
Durante os dias 5 e 6 de outubro, Cristovão Bastos e Mauro Senise dedicaram-se à captura de 14 músicas compostas por Ary Barroso, em uma sessão de trabalho que consolidou a visão artística dos dois músicos cariocas. A produção contou com a participação especial do guitarrista Leo Amuedo, enriquecendo ainda mais as interpretações das obras clássicas. Este trabalho representa uma jornada por décadas de criatividade musical, explorando as composições que definiram um período dourado da música brasileira.
O legado de Ary Barroso na música brasileira
Ary Barroso, nascido em 7 de novembro de 1903 e falecido em 9 de fevereiro de 1964, deixou um legado indelével na cultura musical brasileira. Suas composições, criadas entre os anos 1930 e 1950, representam um dos pilares fundamentais da música popular brasileira, funcionando como uma ponte artística entre gerações e estilos. Antes do surgimento do movimento bossa-novista, que transformaria o cenário musical nos anos 1960, Ary Barroso já havia consolidado seu nome através de melodias memoráveis e letras que capturavam a essência da identidade cultural brasileira.
A influência de Ary Barroso transcendeu seu período de atuação mais intensa, alcançando até mesmo artistas da Bossa Nova, movimento que, paradoxalmente, representava uma ruptura estética com a tradição anterior. João Gilberto e Tom Jobim, dois gigantes da música brasileira que nasceram respectivamente em 1931 e 1927, reconheceram a importância de Ary Barroso e abraçaram seu trabalho como parte da evolução natural da musicalidade brasileira.
As principais composições do álbum
O repertório do novo álbum contempla algumas das mais emblemáticas criações de Ary Barroso. 'Aquarela do Brasil', composta em 1939, figura entre as faixas, assim como 'Morena Boca de Ouro' de 1941 e 'Na Baixa do Sapateiro', datada de 1938. Estas composições refletem a capacidade de Ary Barroso em criar melodias envolventes que se tornaram imortalizadas na memória coletiva da música brasileira.
A música-título 'É luxo só', criada em parceria entre Ary Barroso e Luiz Peixoto em 1957, oferece um fechamento poético para o projeto, reunindo elementos que definem o trabalho colaborativo entre os dois compositores. Esta faixa simboliza a continuidade criativa de Ary Barroso em suas fases mais maduras, demonstrando sua capacidade de inovação mesmo após décadas de intensa atividade artística.
Explorando composições clássicas e suas transformações
Entre as 14 faixas do álbum, destaca-se 'No rancho fundo', originalmente composta em 1931 como um samba-canção que posteriormente migrou para o universo musical sertanejo. Esta trajetória estilística da composição reflete como a obra de Ary Barroso dialogava com diferentes contextos culturais e geográficos do Brasil. A temática ruralista presente na letra, escrita por Lamartine Babo entre 1904 e 1963, complementa a melodia sublime criada por Ary Barroso.
Curiosamente, a melodia de 'No rancho fundo' teve sua origem em uma composição anterior intitulada 'Na grota funda', trabalho do desenhista J. Carlos. Esta conexão entre criadores de diferentes áreas demonstra como Ary Barroso se relacionava com a intelligentsia artística de sua época, incorporando influências e colaborando com talentos diversos para criar sua obra.
Significado do tributo para a música brasileira contemporânea
A decisão de Cristovão Bastos e Mauro Senise em dedicar um álbum inteiro às composições de Ary Barroso representa um ato de preservação musical e reconhecimento histórico. No contexto da música brasileira contemporânea, projetos como este reafirmam a importância de revisitar e reinterpretar os clássicos que formaram a base da identidade musical nacional. A escolha de músicos experientes e respeitados como Bastos e Senise garante que estas interpretações alcançarão novos públicos enquanto mantêm a integridade artística das composições originais.
Este projeto também reflete a compreensão de que a música de Ary Barroso permanece relevante e inspiradora, capaz de dialogar com abordagens musicais contemporâneas através de uma nova geração de intérpretes. A inclusão de um guitarrista adicional como Leo Amuedo demonstra a intenção de oferecer novas perspectivas harmônicas e tímbricas às composições tradicionais, criando um equilíbrio entre a reverência ao passado e a exploração criativa presente.




