Relatório 365 Dias

Documentário 'Elis & eu' revela lado materno da cantora

Documentário 'Elis & eu' revela lado materno da cantora
Imagem: g1.globo.com. Uso informativo; os direitos pertencem ao seu titular.

A intimidade de Elis Regina desvelada na tela

Um novo documentário promete oferecer uma perspectiva inédita sobre Elis Regina mãe, mergulhando nos detalhes mais pessoais da vida familiar da icônica artista brasileira. Produzido por André Buchatsky e dirigido com sensibilidade narrativa, o filme traz à tona dimensões pouco exploradas de Elis Regina Carvalho Costa, transcendendo sua imagem pública como cantora de renome internacional.

O projeto audiovisual, que estreia na próxima terça-feira, 25 de agosto, no canal Universal +, fundamenta-se no relato autobiográfico de João Marcello Bôscoli, seu filho primogênito. Publicado em 2019, o livro intitulado "Elis e eu – 11 anos, 6 meses e 19 dias com minha mãe" serviu como base para a construção de um roteiro que entrelaça depoimentos, material de arquivo, dramatizações cuidadosamente executadas e apresentações musicais que reconstituem os momentos compartilhados entre a artista e seus filhos.

A história de uma vida interrompida prematuramente

A narrativa do documentário circunscreve-se temporalmente entre a infância de João Marcello e o trágico dia 19 de janeiro de 1982, quando Elis Regina faleceu aos 36 anos de idade, deixando três filhos: João Marcelo, Pedro Mariano e Maria Rita. O filme de Buchatsky dedica seus 80 minutos à exploração minuciosa do universo particular destes filhos com a mãe durante toda a década de 1970 até os primeiros dias da década de 1980, período que marca transformações cruciais nas vidas daquele núcleo familiar.

A morte prematura de Elis Regina mãe representa não apenas uma perda pessoal irreparável, mas um ponto de inflexão que transformou completamente a existência daqueles que conviviam com ela sob o teto da residência na Serra da Cantareira, em São Paulo. O documentário busca preservar e compreender essa vida privada, oferecendo ao público uma conexão emocional com os aspectos humanos e cotidianos de uma personalidade cuja existência foi frequentemente consumida pelas demandas de uma carreira artística extraordinariamente exigente.

Depoimentos e perspectivas que completam o retrato

A estrutura narrativa do documentário apoia-se principalmente no testemunho de João Marcello Bôscoli, cujas memórias constituem o eixo central do roteiro. Contudo, complementando essa perspectiva central, o projeto incorpora depoimentos de múltiplos entrevistados que conviveram proximamente com Elis Regina ou possuem conhecimento profundo de sua história pessoal.

Pedro Mariano, filho do meio, compartilha suas próprias recordações sobre os anos passados compartilhando quarto com o irmão mais velho. Celina Silva, que atuava como secretária pessoal da artista, fornece insights sobre a rotina doméstica. A cantora Wanderléa, Natan Marques (guitarrista e diretor musical do último espetáculo realizado por Elis), Ione Cirilo (amiga íntima e confidente da artista) e Julio Maria (biógrafo que dedicou extensa pesquisa à vida de Elis) completam um mosaico de testemunhos que contextualizam o universo particular da mãe em relação aos filhos.

Uma maternidade rígida porém amorosa

Os depoimentos convergem na apresentação de Elis Regina mãe como uma figura que conciliava rigor disciplinar com profundo carinho e dedicação. Segundo Ione Cirilo, amiga próxima da cantora, Elis demonstrava uma culpa latente decorrente de suas ausências profissionais, procurando compensar através de uma educação simultaneamente amorosa e severa.

Um episódio particular ilustra essa dualidade: quando descobre que João Marcelo, aos seis anos, havia retirado dinheiro de sua bolsa, Elis toma atitudes educativas firmes. Simultaneamente, relatos destacam sua participação ativa nas reuniões escolares, seu empenho em cultivar uma horta doméstica e sua habilidade reconhecida na cozinha – capacidade culinária que, conforme relatado com humor por ela mesma, rivalizava em importância com seu talento vocal.

A cantora gerenciava tudo isso enquanto mantinha uma carreira profissional vertiginosa, lançando um álbum anualmente e realizando apresentações continuamente por todo o território brasileiro. Essa rotina extenuante não a impediu de exercer uma maternidade presente, orientadora e disciplinadora quando necessário.

Dramatizações que ganham vida na tela

O documentário recorre a dramatizações para reconstruir cenas da infância de João Marcello com sua mãe. Antônio Menqui e Vitor Constantino interpretam o personagem de João Marcelo em diferentes fases etárias, enquanto Lilian Menezes assume o papel de Elis Regina. A atriz, que anteriormente havia encarnado a cantora no espetáculo teatral "Elis, a musical", traz credibilidade e profundidade interpretativa ao trabalho.

Particularmente notável é a performance vocal de Lilian Menezes ao interpretar o samba "Madalena" (composição de Ivan Lins e Ronaldo Monteiro de Souza, 1970), onde consegue aproximar-se significativamente do registro vocal original da artista, ainda que este número musical não encontre integração orgânica completa na narrativa geral do filme.

Memória como ferramenta de reconstrução

Pedro Mariano oferece uma reflexão particularmente relevante durante o documentário: "A memória é como um músculo que você precisa exercitar, se não atrofia". Esta afirmação funciona como leitmotiv para o projeto como um todo, justificando a necessidade de preservação e reconstrução das lembranças familiares antes que se dissipem completamente.

O documentário "Elis & eu" transforma-se, portanto, em um exercício de memória coletiva, permitindo que a geração subsequente acesse fragmentos da vida cotidiana de uma figura histórica através das perspectivas daqueles que a conheceram em sua dimensão mais humana e vulnerable. Maria Rita, a filha caçula, está representada apenas através de breve fala extraída de entrevista concedida em 2016, mas sua presença, ainda que limitada, completa o retrato familiar.

Perspectiva audiovisual sobre a vida privada

André Buchatsky estruturou o roteiro em colaboração com André Rodrigues, combinando estrategicamente depoimentos contemporâneos com material de arquivo, dramatizações e números musicais que funcionam como janelas para o passado. Fragmentos de entrevistas que a própria Elis concedeu sobre maternidade para programas televisivos permeiam toda a narrativa, adicionando sua voz direta ao discurso que seus filhos constroem sobre ela.

Este documentário representa, fundamentalmente, uma tentativa de humanizar uma figura cuja imagem pública foi amplificada por uma carreira extraordinária, devolvendo-lhe as dimensões de pessoa ordinária que cuida de filhos, cozinha, cultiva plantas e navega pelas complexidades da compatibilização entre vida profissional e responsabilidades familiares. A estreia no Universal + promete alcançar público amplo interessado em compreender melhor as dinâmicas que moldaram uma das maiores intérpretes musicais do Brasil.

Também em Cultura

Criptomoedas

Ethereum (ETH) $2,268 ▲ 18.57%
BNB $626 ▲ 3.84%
Solana (SOL) $85 ▲ 11.13%

Divisas

USD/EUR0.8617
EUR/GBP0.8561