Economista Lula defende taxação de riqueza

O paradoxo econômico do Brasil sob Lula
A economista Laura Carvalho, professora da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP) e membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável, dedica-se a compreender um fenômeno intrigante: apesar dos indicadores econômicos positivos, há profunda insatisfação populacional. O terceiro mandato de Lula apresenta desemprego em mínimas históricas, com 5,6% em maio de 2025, crescimento econômico acima das expectativas e 17,5 milhões de brasileiros que saíram da pobreza entre 2022 e 2024. Contudo, pesquisa Genial/Quaest de junho revela que 44% dos entrevistados afirmam que a economia piorou nos últimos 12 meses, enquanto apenas 20% apontam melhora.
Carvalho e seu marido, economista Guilherme Klein Martins, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), publicaram recentemente o artigo "Paradoxos do Lulismo: a desconexão entre resultados macroeconômicos e percepção sobre a economia". O trabalho identifica quatro fatores principais para explicar esse descompasso: os efeitos persistentes da inflação sobre o bem-estar; a comparação com o ciclo de mobilidade social dos anos 2000, durante os dois primeiros governos Lula; a mudança nos desejos de consumo impulsionada pelas redes sociais; e a frustração de uma geração escolarizada que não encontra empregos compatíveis com sua formação.
O papel das redes sociais na mudança de aspirações
Um dos aspectos centrais da análise de Carvalho refere-se ao consumo aspiracional amplificado pelas redes sociais. "Com as redes sociais, as pessoas têm acesso ao padrão de consumo de classes muito mais ricas, de forma muito mais fácil", observa a professora. Nos anos 2000, durante os governos Lula 1 e 2, as pessoas viam apenas o padrão de consumo de seu bairro e família. Atualmente, visualizam o que consomem membros da classe média europeia ou ricos brasileiros, gerando homogeneização de desejos em escala global sem precedentes na história.
Essa mudança explica diferenças importantes entre a percepção econômica daquele período e a atual. Na década de 2000, a distribuição de renda na base da pirâmide aliada ao crescimento econômico expressivo incluiu populações totalmente excluídas do mercado consumidor. Pessoas obtinham acesso a geladeiras e viagens de avião, surgindo uma nova classe média. Atualmente, essa mesma classe média já não se satisfaz com esse padrão de consumo, desejando um estilo de vida condizente com as aspirações globalizadas vistas em redes digitais.
Desigualdade persistente e a agenda de tributação
Segundo o World Inequality Report 2026, a desigualdade no Brasil segue entre as mais altas do mundo, inclusive crescendo entre 2014 e 2024. Carvalho explica que a desigualdade brasileira caracteriza-se pela concentração muito alta de renda e patrimônio no topo da pirâmide. Entre o meio e a base, a desigualdade é relativamente pequena. Os programas sociais, valorização do salário mínimo e dinamismo do mercado de trabalho reduziram desigualdade nesse segmento, mas não afetaram significativamente a concentração no topo.
A professora argumenta que o governo Lula 3 iniciou avanços nessa agenda ao implementar reforma do Imposto de Renda com alíquota mínima de 10% para altas rendas e isenção progressiva até R$ 7,5 mil. Porém, defende que o debate precisa evoluir para "alguma forma de taxação de riqueza". A concentração de riqueza supera a concentração de renda, perpetuando desigualdade também no sistema político, pois influência daqueles no topo é desproporcional, atuando para preservar estruturas existentes.
A dívida pública e a transferência de renda aos ricos
Carvalho problematiza o papel da dívida pública na perpetuação da desigualdade. "O Estado brasileiro, por meio da dívida pública elevada que paga juros muito altos, acaba transferindo renda para os mais ricos e atuando para perpetuar essa desigualdade elevada". Muitos detentores da dívida são pessoas de alto patrimônio que, sem muito risco envolvido, obtêm rendimentos elevados. Isso significa que o governo transfere renda para os mais ricos, fenômeno que ela considera um custo distributivo frequentemente negligenciado nas discussões econômicas.
Caminhos para um novo ciclo de prosperidade
Para restaurar um ciclo de prosperidade no Brasil, Carvalho propõe agenda integrada: crescimento econômico robusto com redistribuição de renda; expansão dos serviços públicos de qualidade em saúde, educação e transporte; e avanço na tributação progressiva e taxação de riqueza. Quanto aos serviços públicos, aponta que gastos tributários representam 6% do PIB, contribuindo para desigualdade sem perseguir agenda específica clara. Esses recursos poderiam financiar expansão de serviços públicos liberando margem orçamentária das famílias para aspirações pessoais.
Carvalho também destaca importância de política industrial que diversifique economia e gere empregos qualificados. Brasil expandiu educação superior significativamente durante governos petistas anteriores via Fies, Prouni e universidades federais, criando geração inteira com diploma universitário. Contudo, mercado de trabalho gera majoritariamente postos em setores de baixa qualificação com salário mínimo, criando descompasso entre qualificação e oportunidades.
O futuro da análise econômica
Atualmente diretora de Prosperidade Econômica e Climática da Open Society Foundation, Carvalho é autora do livro "Valsa Brasileira" (2018), que analisou transição da economia de prosperidade (2006-2010) para recessão (2014-2017). Ela mantém posição de analista externa do governo, preferindo contribuir pela academia e pesquisa. Sua próxima prioridade é escrever novo livro analisando ciclo necessário de prosperidade econômica que supere desafios atuais, identificando agendas viáveis para implementação dentro dos limites fiscais e políticos do país.




