Relatório 365 Dias

Governo alerta para riscos de sanções dos EUA a brasileiros

Governo alerta para riscos de sanções dos EUA a brasileiros
Fonte: g1.globo.com/politica/noticia/2026/07/01/governo-teme-impacto-de-sancoes-dos-eua-a-brasileiros-e-alerta-para-riscos-a-bancos.ghtml

Preocupação com impactos das sanções dos EUA a brasileiros

O Ministério da Justiça acompanha com crescente inquietação os possíveis impactos das sanções dos EUA a brasileiros envolvidos em investigações por suposta conexão com facções criminosas. A medida afeta duas pessoas físicas e três empresas nacionais, gerando debates sobre consequências secundárias para o setor financeiro do país.

Os brasileiros atingidos pelas sanções norte-americanas são Victor Henrique de Oliveira Shimada e Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira. Paralelamente, três companhias brasileiras também foram sancionadas: Victory Trading Intermediação De Negócios Cobranças E Tecnologia Ltda, Pixwave Soluções De Pagamentos Ltda e Wave Construções Inteligentes Ltda, além da Avenidas Flutuantes Unipessoal Lda, sediada em Portugal.

Declaração do governo americano sobre as sanções

De acordo com comunicado oficial do governo dos EUA, todos os ativos dos indivíduos sancionados localizados no território americano serão congelados e reportados ao Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (OFAC). Adicionalmente, qualquer empresa que pertença, de forma direta ou indireta, em 50% ou superior às pessoas sancionadas igualmente terá seus bens bloqueados.

O governo americano alega que Shimada chefiava, a partir de São Paulo, uma estrutura dedicada à lavagem de dinheiro que funcionava conjuntamente com membros da facção Primeiro Comando da Capital (PCC) estabelecidos na Flórida. Conforme as autoridades dos EUA, o grupo transferiu mais de US$ 30 milhões em recursos de procedência ilícita, utilizando ativos digitais para movimentar valores provenientes do tráfico internacional de narcóticos.

Contexto das investigações e classificação do PCC

A secretária nacional de Justiça (Senajus), Maria Rosa Guimarães Loula, apontou que a situação já representava um risco após a decisão do governo americano de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como entidades terroristas. Segundo Loula, essa categorização elevou consideravelmente as probabilidades de ações como as sanções ora implementadas.

Preocupações com efeitos secundários

Durante entrevista concedida à imprensa, a secretária expressou que as preocupações governamentais não se limitam aos indivíduos diretamente sancionados, mas estendem-se aos possíveis "efeitos secundários" sobre terceiros e instituições financeiras brasileiras. "Não defendemos criminosos. O que tememos é que essa espetacularização gere efeitos secundários sobre pessoas que não têm ligação com o crime e sobre instituições financeiras brasileiras", declarou.

A autoridade brasileira mencionou o caso do México como exemplo dos riscos envolvidos. Em junho de 2025, os EUA anunciaram sanções contra três importantes instituições financeiras mexicanas — o CIBanco, o Intercam Banco e a corretora Vector Casa de Bolsa —, acusadas de facilitar operações de lavagem de dinheiro relacionadas ao comércio de drogas. Essas medidas restringiram significativamente o acesso dessas instituições ao sistema financeiro americano.

Questionamentos da Polícia Federal brasileira

Segundo o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, Victor Henrique de Oliveira Shimada e Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira não possuem ligação comprovada com o PCC, contrariando as alegações das autoridades americanas. Essa divergência interpretativa entre os órgãos brasileiros e americanos intensifica as tensões diplomáticas em torno das sanções.

Victor foi preso preventivamente no Brasil em dezembro de 2024, durante investigações sobre lavagem de dinheiro associadas ao caso envolvendo Corinthians. Em janeiro de 2025, passou breve período em prisão domiciliar, sendo posteriormente libertado após obter habeas corpus mediante pagamento de fiança.

Condenação e situação processual atual

Recentemente, a 4ª Vara Criminal Federal de São Paulo condenou Victor a cinco anos de reclusão em regime semiaberto pelo delito de lavagem de dinheiro. Ele responde ao processo em liberdade, não utiliza mais tornozeleira eletrônica e está impedido de sair do país.

Conforme relatório da Polícia Civil de São Paulo, Victor Henrique de Oliveira Shimada figura numa cadeia financeira que conecta sua empresa à Wave Intermediações e à UJ Football Talent. A UJ foi mencionada na delação premiada de Antonio Vinicius Lopes Gritzbach como entidade supostamente vinculada a Danilo Lima de Oliveira, conhecido como "Tripa", indicado pelo delator como membro do PCC.

O documento ressalta que o próprio Gritzbach emergiu em análises financeiras associadas à Wave, empresa que mantinha movimento intenso com a Victory Trading. Porém, a investigação não assegura que Victor Shimada seja integrante da facção, mas sustenta que ele estaria inserido num fluxo financeiro que se cruza com indivíduos e entidades mencionadas em apurações sobre a organização criminosa.

Perfil de Stella Stefanie Nunes

Conforme relato do governo norte-americano, Stella é parente de Shimada e atuou como sua secretária. O governo dos EUA afirma que ela funcionou como intermediária na coleta de quantias expressivas em dinheiro, prestando serviços logísticos imprescindíveis para as operações de lavagem da rede.

Diferentemente de Shimada, Stella não apresenta antecedentes criminais e não responde a qualquer processo judicial no Brasil.

Defesa da cooperação bilateral

A secretária nacional de Justiça sustentou que o progresso das apurações nos EUA foi viabilizado unicamente pelo empenho das autoridades brasileiras, defendendo intensificação da cooperação entre os dois países. Segundo ela, as informações repassadas pelo Brasil contribuíram substancialmente para as investigações americanas, porém o compartilhamento de dados poderia ter alcançado dimensões maiores.

"Não acreditamos em medidas unilaterais. Os Estados Unidos atuaram com base em informações e conceitos que saíram do Brasil. Se tivessem compartilhado mais informações conosco, poderíamos ajudá-los", afirmou Loula, ressaltando a importância do diálogo entre as nações na condução de casos de magnitude internacional.

A posição do governo brasileiro reflete a necessidade de estabelecer canais mais efetivos de comunicação e troca de informações para evitar impactos colaterais desnecessários sobre instituições financeiras e cidadãos brasileiros não envolvidos diretamente com atividades ilícitas.

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