Relatório 365 Dias

Habeas Corpus: atrizes revelam impacto da Justiça

Habeas Corpus: atrizes revelam impacto da Justiça
Imagem: g1.globo.com. Uso informativo; os direitos pertencem ao seu titular.

A série que questiona o sistema judiciário

A produção Habeas Corpus da Netflix chega como o primeiro drama jurídico brasileiro da plataforma de streaming, trazendo reflexões profundas sobre as falhas do sistema de Justiça do país. A trama coloca em evidência as contradições e limitações do Judiciário, apresentando personagens que se veem envolvidas em situações que desafiam conceitos tradicionais de culpa, inocência e reparação.

Na série, Marjorie Estiano interpreta Inez Franco, uma professora e advogada criminalista que lidera um grupo de revisão criminal. A personagem, à primeira vista, preocupa-se principalmente em beneficiar-se da lei, utilizando emoção e narrativas convincentes durante julgamentos perante júris. Do outro lado da história, Any Gabrielly dá vida a Marina, uma brilhante aluna bolsista que integra esse grupo de revisão criminal e se envolve nos casos por razões que transcendem o interesse acadêmico.

O processo de preparação e descobertas

A preparação para Habeas Corpus Netflix envolveu muito mais do que memorização de diálogos. As atrizes participaram de visitas a fóruns, conversas com advogados experientes e pesquisa detalhada de casos reais que revelaram a dureza do sistema. Essa experiência transformou significativamente a percepção de ambas sobre o funcionamento da Justiça brasileira.

Any Gabrielly compartilhou sua trajetória de aprendizado durante entrevista: inicialmente, acreditava compreender as falhas do sistema, mas o contato direto com processos reais modificou completamente essa visão. "Ver isso na sua frente muda tudo. É muito diferente você estar na sua casa e falar que o sistema é uma bosta e você ver o sistema sendo uma bosta. Foi um tapão na cara", resumiu a atriz.

Para Marjorie Estiano, a principal lição envolveu compreender a relação profunda entre Justiça e vulnerabilidade social. A atriz destacou a importância de um Estado eficaz na garantia de cidadania e ressaltou o impacto devastador quando o Estado falha: "Foram muitos aprendizados em diversas vertentes, mas o principal foi a dimensão do impacto da justiça dentro de uma população vulnerável. O abandono do Estado fica muito gritante".

As falhas do sistema jurídico brasileiro

Any Gabrielly descreveu as descobertas sobre as falhas da Justiça como "muito desumanas e cruéis", capazes de destruir vidas inteiras. Ao pesquisar sobre pessoas que vivenciaram situações similares às retratadas na série, a atriz compreendeu a profundidade do problema que as produções convencionais frequentemente tratam de forma superficial.

A série traz à tona instrumentos jurídicos importantes para entender a narrativa. Embora tenha Habeas Corpus no título, o instrumento que realmente move a história é a revisão criminal. O habeas corpus, previsto na Constituição Federal, pode ser utilizado quando alguém sofre ou corre risco de sofrer restrição ilegal ao direito de locomoção. A revisão criminal, por sua vez, permite revisitar uma condenação definitiva quando surgem novas provas de inocência ou em outras situações previstas em lei.

Um caso de injustiça no centro da trama

A narrativa de Habeas Corpus segue o trabalho de Inez e seus estudantes de Direito na busca por evidências que coloquem em dúvida uma sentença condenatória. O caso central envolve Jonathan, um jovem de apenas 19 anos condenado injustamente a 47 anos de prisão por homicídio, interpretado pelo ator Hipólyto.

Esse cenário coloca o espectador diante de questionamentos fundamentais: como alguém tão jovem pode ser condenado injustamente a tanto tempo? Qual é o papel do sistema jurídico em prevenir essas injustiças? Essas perguntas ecoam ao longo de toda a produção.

O impacto esperado na audiência

Any Gabrielly expressa esperança de que a premissa de Habeas Corpus Netflix estimule o público a questionar suas próprias convicções sobre Justiça, crime e punição. A atriz acredita que a série "cutuca" constantemente as ideias estabelecidas: "Espero que as pessoas se sintam cutucadas por todos os conceitos que elas têm sobre a justiça. A série faz você pensar por que que você acha isso, por que você acha aquilo".

A evolução da personagem de Marjorie Estiano

Marjorie Estiano destaca que sua personagem, Inez Franco, passa por uma transformação significativa ao longo da narrativa. Inicialmente, a professora demonstra maior preocupação em beneficiar-se da lei do que em defender verdadeiros princípios jurídicos. "A justiça estava um pouco mais a serviço do ego dela, da vaidade. Através desses erros, ela começa a se questionar e ressignificar, e o arco é justamente o de rever o seu papel dentro daquele sistema", explicou.

Para a atriz, a série oferece uma provocação importante ao público: "A expectativa é mostrar a importância desse órgão, da função da justiça dentro de uma sociedade. É um elemento que precisa se rever o tempo inteiro, se fiscalizar, se corrigir, se atualizar."

A experiência de trabalhar com veteranos

Any Gabrielly também ressaltou o impacto de trabalhar ao lado de atores veteranos consagrados. A experiência trouxe uma sensação mista de nervosismo e aprendizado: "É foda. É foda. É muito difícil achar outras palavras para descrever a experiência", brincou.

Um momento marcante ocorreu durante gravações de cenas de tribunal realizadas no período de Carnaval, envolvendo sequências de julgamentos, textos extensos e momentos de alta tensão. Any descreveu a experiência de observar profissionais como Marisa Orth, Marjorie Estiano e Vladimir Brichta em ação como transformadora: "Era tão lindo ver esses veteranos trabalhando. Queria poder engarrafar tudo aquilo e levar no bolso para o resto da vida".

São Paulo como palco da narrativa

A série apresenta uma forte presença de São Paulo em sua produção. As gravações utilizaram locações icônicas, incluindo a Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo no Largo São Francisco, onde foram filmadas cenas acadêmicas e jurídicas. A Sala São Paulo e o Instituto de Biologia também serviram como cenários para a trama.

Uma residência projetada pelo renomado arquiteto Paulo Mendes da Rocha, localizada no Butantã, foi transformada na casa de Murilo, personagem interpretado por Vladimir Brichta, e sua esposa Bianca, vivida por Renata Gaspar.

Inspiração em casos reais e discussão jurídica

A série encontra inspiração em casos reais gerenciados pela ONG Innocence Project Brasil, organização que se dedica à revisão de processos com condenações injustas. Embora a narrativa seja ficcional, ela constrói uma história que permite discussões profundas sobre direito ao contraditório, direito à ampla defesa, questões de culpa e a necessidade de reparação.

Através dessas discussões, Habeas Corpus proporciona reflexão sobre como o sistema jurídico afeta pessoas vulneráveis e quanto um erro judicial pode ter peso duradouro na vida de alguém. A produção se configura como um chamado para que sociedade, profissionais do Direito e instituições repensem constantemente suas práticas e princípios.

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