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Juliane Gamboa revive luta de mulher que denunciou PM

Juliane Gamboa revive luta de mulher que denunciou PM
Imagem: g1.globo.com. Uso informativo; os direitos pertencem ao seu titular.

A história de coragem que inspirou uma canção

Em colaboração com o renomado cantor Ivan Lins, a artista Juliane Gamboa traz ao conhecimento das novas gerações uma narrativa de resistência e dignidade. O single intitulado "Coragem mulher" resgata a memória de Marli Pereira Soares, uma mulher que enfrentou a Polícia Militar do Rio de Janeiro para denunciar o assassinato do irmão, Paulo Pereira Soares, ocorrido em 13 de outubro de 1979. Juliane Gamboa escolheu essa composição original de Ivan Lins, lançada inicialmente no álbum "Novo tempo" em 1980, para seu novo trabalho discográfico, trazendo uma perspectiva contemporânea a um episódio histórico de importância ímpar.

Os fatos que marcaram uma geração

No bairro de Vila Pauline, em Belford Roxo, no estado do Rio de Janeiro, policiais do 20º Batalhão de Polícia Militar invadiram a residência onde Marli Pereira Soares vivia com seu irmão. Paulo Pereira Soares, com apenas 18 anos de idade, foi executado com diversos disparos de arma de fogo. O que diferenciou este caso de tantos outros foi a reação corajosa de Marli, que no dia seguinte ao crime dirigiu-se ao batalhão para reconhecer, apontar e denunciar os responsáveis pela execução. Tal ação foi repetida em diversas ocasiões, incluindo idas à delegacia, demonstrando uma determinação que lhe valeu o título de "Marli Coragem" na imprensa brasileira.

Quando a música encontra a denúncia social

Ivan Lins e o letrista Vitor Martins foram profundamente impactados pela história de Marli Pereira Soares. A resposta artística foi imediata: uma composição em forma de samba que exaltasse a coragem desta mulher. A música "Coragem mulher" emergiu como uma forma de celebrar a resistência de Marli diante de um sistema que a ameaçava. Conforme relata Ivan Lins, os policiais militares chegaram a ameaçar matar Marli e todos os membros de sua família caso revelassem qualquer informação sobre o crime. Apesar dessas intimidações, Marli permaneceu firme em seu propósito de buscar justiça, comparecendo ao quartel para denunciar pessoalmente os executores do crime diante de tropas formadas para a ocasião.

Juliane Gamboa e a relevância contemporânea

Juliane Gamboa, cantora e compositora que conquistou reconhecimento com seu álbum "Jazzwoman" lançado em 2024, descobriu em "Coragem mulher" uma conexão profunda com sua própria trajetória e vivência. A artista reflete sobre o impacto emocional de conhecer uma história tão poderosa e, surpreendentemente, tão pouco difundida. "Estava procurando uma música inédita para o meu próximo disco e fiquei muito tocada com toda a história, além de impressionada por nunca ter ouvido falar no nome de Marli Pereira Soares, mesmo estando há alguns anos dentro do movimento negro", expressa Juliane Gamboa. Para ela, a narrativa de Marli ressoa com as experiências das mulheres de sua própria família e com as questões de identidade, gênero e justiça racial que permeiam seu trabalho artístico.

A perspectiva de Ivan Lins sobre arte e política

O veterano cantor Ivan Lins reafirma a importância de trabalhos artísticos como este para as gerações contemporâneas. Segundo sua avaliação, toda manifestação artística carrega uma dimensão política e possui o potencial de transformar consciências. "Tenho muita esperança de que a Juliane consiga, através dessa canção, mexer com as pessoas. Tudo é política em arte, e é importante que as novas gerações se comprometam a melhorar o Brasil no sentido humanístico", declara Ivan Lins. O cantor também aponta para questões urgentes de seu tempo, destacando o crescimento da intolerância racial, social e religiosa em diversos países. Neste contexto, composições como "Coragem mulher" ganham ainda mais relevância, servindo como ferramenta de conscientização e resistência.

Um legado de dor e persistência

A vida de Marli Pereira Soares, nascida em 1954 na Favela do Pinto, foi marcada por tragédias múltiplas. Além da perda do irmão Paulo em 1979, Marli vivenciou a morte de seu filho Sandro, então adolescente com 15 anos, assassinado por um policial em 13 de janeiro de 1993. Este segundo luto, ocorrido catorze anos após o primeiro, evidencia um padrão de violência policial que persistiu na história do Brasil. Conforme Ivan Lins relata, a luta contínua de Marli por justiça não recebeu o mesmo reconhecimento artístico após o assassinato de seu filho. Com aproximadamente 72 anos de idade, Marli Pereira Soares carrega consigo memórias de duas execuções na família, simbolizando a luta de inúmeras famílias brasileiras afetadas pela violência institucional.

O ressurgimento da voz de "Marli Coragem" em 2026

A gravação contemporânea de "Coragem mulher" foi realizada no estúdio da gravadora Biscoito Fino, localizado no Rio de Janeiro, sob a direção musical de Juliane Gamboa. Diego do Valle contribuiu com arranjos sofisticados e produção musical que elevam a composição original. O single foi lançado em 20 de agosto, representando um momento significativo de resgate e reinterpretação de uma narrativa histórica que merecia ser recontada para públicos contemporâneos. A escolha de Juliane Gamboa de revitalizar esta composição em colaboração com Ivan Lins reafirma o poder transformador da música como instrumento de memória coletiva e testemunho de resistência.

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