Maria Rita ressurge em gigantismo no show Redescobrir vol. 2

Maria Rita e o Retorno à Grandeza Artística
O espetáculo 'Redescobrir vol. 2' marca o retorno de Maria Rita a uma dimensão de grandeza que havia se diluído nos últimos anos. A apresentação realizada no Vivo Rio, no Rio de Janeiro, no dia 10 de outubro de 2026, reposiciona a intérprete em seu devido lugar como uma das maiores vozes da música brasileira contemporânea. Este segundo volume da turnê, que homenageia sua mãe Elis Regina, demonstra que Maria Rita, quando embalada pelo legado materno, não apenas se preserva, mas se projeta e se engrandece como artista.
Uma Sequência do Tributo Original
Continuação do tributo prestado a Elis Regina em 2012 – espetáculo eternizado em álbum duplo ao vivo e DVD – 'Redescobrir vol. 2' retoma a conexão entre mãe e filha, agora com uma maturidade e profundidade ainda maiores. Maria Rita ressaltou durante seu discurso no palco que, ao estar no colo da mãe, não se encolhe como uma criança desprotegida. Pelo contrário, é embalada por esse colo que a cantora se projeta, recuperando aquela força interpretativa que marcou seu álbum inaugural de 2003. Reaparece em cena a artista que o público desejava ouvir há anos.
Diferenças e Evoluções em Relação ao Show de 2012
Se a qualidade vocal de Maria Rita permanece consistente entre os dois espetáculos, os arranjos do tecladista e diretor musical Rodrigo Tavares elevam significativamente o segundo volume acima da produção original. Enquanto o show de 2012 foi orquestrado com maior reverência aos arranjos originais da discografia de Elis, 'Redescobrir vol. 2' apresenta um frescor renovador. Os sopros do trombone de Samuca e do trompete de Vander Nascimento transformam a atmosfera de diversos números, adicionando uma dimensão mais contemporânea sem perder a essência das composições.
A turné nacional teve sua estreia em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, em 13 de março de 2026, terra natal de Elis Regina. Sete meses depois, o show chegava ao Rio de Janeiro com refinamentos e uma setlist ligeiramente modificada. Embora tenha perdido dois sambas do roteiro original – 'O mestre-sala dos mares' (João Bosco e Aldir Blanc, 1974) e 'Eu hein, Rosa!' (João Nogueira e Paulo César Pinheiro, 1979) – a apresentação carioca adicionou um momento político marcante com a improvisação a capella de 'Romaria' (Renato Teixeira, 1977) após o bis.
Profundidade no Repertório Escolhido
A profundidade do trabalho realizado por Maria Rita no 'Redescobrir vol. 2' fica evidente nas escolhas do repertório. Músicas menos lembradas como 'Um por todos' (João Bosco e Aldir Blanc, 1975) e 'Jardins da infância' (João Bosco e Aldir Blanc, 1975) – ambas incluídas por Elis no álbum 'Falso brilhante' (1976) – sinalizam que a cantora mergulhou genuinamente na obra da mãe, sem necessidade de jogar para a plateia. Logo na abertura, após entrada em cena ao som de 'Redescobrir' (Gonzaguinha, 1980), Maria Rita canta 'Outro cais' (Marilton Borges e Duca Leal, 1980), composição gravada por Elis fora de sua discografia oficial como convidada do álbum da família Borges.
Momentos Emocionantes e Significado Político
A performance de 'Como nossos pais' (Belchior, 1976) é executada de forma arrebatadora, expondo a atualidade da música e seus perigos latentes. Porém, o momento mais politicamente carregado da apresentação ocorre com a improvisação de 'Romaria', quando Maria Rita canta em feitio de oração. Essa performance emocionou profundamente a plateia, impacto potencializado pela exposição no telão do choro de Antonio Baldini, filho da artista e integrante da banda, neto que Elis Regina não chegou a conhecer.
A Grandeza Interpretativa de Maria Rita
'As aparências enganam' (Tunai e Sérgio Natureza, 1979) representa o grande momento do show, onde Maria Rita alcança a mesma dimensão emocional e interpretativa de sua mãe Elis Regina. A beleza cênica é potencializada pelas imagens projetadas no cenário concebido por Batman Zavareze, algumas expandindo o sentido das músicas. Contudo, tudo se apequena diante do canto imenso e intenso de Maria Rita.
A cantora demonstra notável senso rítmico ao se equilibrar com segurança nos sambas do roteiro. Composições como 'Agora tá' (Tunai e Sérgio Natureza, 1980) e 'Cai dentro' (Baden Powell e Paulo César Pinheiro, 1979) mostram a swingueira renovada pelos sopros da banda, revelando a capacidade de Maria Rita de manter a corda bamba do ritmo sem desequilibrar-se.
A Banda e os Arranjos Musicais
A big band que acompanha Maria Rita executa com maestria os arranjos renovadores de Rodrigo Tavares. Integram o grupo Jorge Quinho na percussão, complementado por Pedrinho da Serrinha, Gabriel Quinto na guitarra e violão de sete cordas, e Carlos Júnior no baixo. Antonio Baldini, filho da cantora, toca violão em números como 'Corcovado' (Antonio Carlos Jobim, 1960), música gravada por Elis em 1974 no álbum 'Elis & Tom'.
'20 anos blue' (Sueli Costa e Vitor Martins, 1972) é ambientada em atmosfera apropriada de blues pela pulsação do baixo largo. Já 'Aquarela do Brasil' (Ary Barroso, 1939) vem precedida por breve citação instrumental de 'Querelas do Brasil' (Maurício Tapajós e Aldir Blanc, 1978) com arranjo que cita a abordagem de Elis no show 'Saudade do Brasil' (1980). Um batuque ancestral introduz 'Zambi', música de Edu Lobo com Vinicius de Moraes, lançada originalmente por Edu em 1964 e abordada por Elis em 1965 com o Zimbo Trio.
Intersecções Entre os Dois Shows
Algumas composições permanecem como ponte entre as duas versões do tributo. 'Essa mulher' (Joyce Moreno e Ana Terra, 1979), 'Ladeira da Preguiça' (Gilberto Gil, 1973), 'O bêbado e a equilibrista' (João Bosco e Aldir Blanc, 1979), 'Maria Maria' (Milton Nascimento e Fernando Brant, 1976) e 'Como nossos pais' comparecem nos roteiros de ambas as produções. O choro-canção 'Carinhoso' (Pixinguinha e João de Barro, 1937) é cantado lindamente como se o palco fosse um salão de baile dos anos 1940.
Conclusão: O Retorno de Uma Gigante
'Redescobrir vol. 2' supera o espetáculo original de 2012, reposicionando Maria Rita como a maior cantora de sua geração. A artista, que é obviamente a mesma intérprete e evoca naturalmente o canto de Elis por questões de DNA, nunca se porta em cena como cover ou cópia genérica da mãe. Possui dom, magia e capacidade de mergulhar no repertório de Elis Regina com propriedade absoluta. Quase 50 anos após Elis Regina ter parido sua filha em 1977, o show 'Redescobrir vol. 2' representa um novo nascimento artístico de Maria Rita, renascida e honrando a mãe tanto no sentido musical quanto político.




