Relatório 365 Dias

Marina Iris reverencia Wilson Moreira em disco

Marina Iris reverencia Wilson Moreira em disco
Imagem: g1.globo.com. Uso informativo; os direitos pertencem ao seu titular.

Um tributo consciente ao mestre do samba carioca

Marina Iris apresenta ao público 'Banzo batucada', álbum dedicado a Wilson Moreira, compositor que seria homenageado em seus 90 anos caso ainda vivesse. O disco, lançado pela Biscoito Fino em 25 de setembro, representa mais que um simples tributo ao criador de clássicos do samba carioca – é uma exploração profunda e reverente da obra de um dos grandes mestres frequentemente deixado à sombra de seus contemporâneos.

Wilson Moreira Serra nasceu em 12 de dezembro de 1936 e faleceu em 6 de setembro de 2018, deixando um legado vibrante no universo do samba do Rio de Janeiro. Embora reconhecido entre os bambas da modalidade, o compositor nunca recebeu o mesmo destaque conferido a outras figuras da mesma geração, como Candeia ou Martinho da Vila. Este novo trabalho de Marina Iris surge justamente para preencher essa lacuna, apresentando Wilson Moreira com a importância que merece.

Uma seleção de raras pérolas do acervo de Wilson Moreira

O grande diferencial deste projeto está na curadoria inovadora. Em vez de recorrer aos standards mais conhecidos – aqueles feitos em parceria com Nei Lopes, como 'Coisa da antiga', 'Candongueiro' e 'Goiabada cascão' – Marina Iris mergulhou nas profundezas do acervo, descobrindo jóias esquecidas e raramente interpretadas. Essa abordagem demonstra intimidade genuína com a obra de Wilson Moreira, refletindo pesquisa aprofundada e paixão pelo material.

Entre os destaques está a criação de um medley especial unindo 'Coité, cuia' (parceria de Wilson Moreira e Nei Lopes de 1977) com 'Meu baio e meus balaios' (1975). Ambos os sambas foram originalmente gravados por Roberto Ribeiro, cantor relevante cuja discografia permanece pouco explorada pelas gerações contemporâneas. Marina Iris resgata esses trabalhos, devolvendo-lhes a importância merecida.

Estrutura e produção musical do disco

Sob direção artística de Marina Iris, com produção musical de Alaan Monteiro e Alessandro Cardozo, 'Banzo batucada' reúne 14 faixas contendo 18 sambas e um texto. Dos 18 trabalhos, 16 pertencem ao catálogo de Wilson Moreira, enquanto dois sambas inéditos foram compostos especificamente para homenagear o mestre.

O álbum abre com 'Mestre Wilson soberano' (Manu da Cuíca e Marina Iris, 2026), um samba lento que funciona como porta de entrada respeitosa para a jornada musical. No encerramento, o partido alto 'Moringa do Moreira' (Marquinho China e Luiz Carlos Máximo, 2026), arranjado por Ana Costa, oferece encerramento grandioso com versos improvisados de Gabrielzinho do Irajá, Marquinho China e Mosquito.

Parcerias memoráveis e convidados especiais

Marina Iris convida para este projeto artistas que compartilham sua reverência pela obra de Wilson Moreira. Teresa Cristina participa da interpretação de 'Alegria perdida (Yoyô de yayá)', partido alto de 1974 fruto da criatividade conjunta de Wilson Moreira e Candeia, cuja versão original data de há 52 anos.

Zeca Pagodinho integra o álbum em 'Moenda velha' (1993), samba que ambos compuseram juntos, gravado com arranjo de Pretinho da Serrinha. Jorge Aragão participa de 'Quintal do céu' (1986), composição que exemplifica o lirismo luminoso típico da parceria entre o próprio Aragão e Wilson Moreira – trabalho realizado há quatro décadas.

Chico César e Juliana Linhares unem-se a Marina Iris em 'Canteiro de obra' (Wilson Moreira e Sérgio Fonseca, 1986), complementada em medley com o texto 'Amanhã será melhor', do poeta pernambucano Solano Trindade (1908 – 1974). A música reflete sobre a migração nordestina para o sudeste brasileiro, criando uma narrativa social profunda através da combinação de samba, seresta, toada e baião.

Rescgatando clássicos esquecidos do repertório de Wilson Moreira

'Okolofé', samba lançado por Wilson Moreira em 1989 como homenagem ao ator Grande Otelo (1915 – 1993), ressurge valorizado pelo canto coletivo do Coro de Artista de Teatro, formado por diversos intérpretes. Do mesmo álbum de 1989, Marina Iris resgata 'Belo encontro' e 'Formiga miúda' (Wilson Moreira e Sérgio Fonseca), este último em medley com 'A brilhante velha guarda' (2002).

'Não foi ela' (1978), fruto da parceria entre Wilson Moreira e Nei Lopes, surge como uma das raras pérolas do trabalho. Embora tenha recebido regravação por Zeca Pagodinho em 1997, a interpretação de Marina Iris oferece nova dimensão ao clássico esquecido.

A espiritualidade e ancestralidade em 'Jongo do Irmão Café'

'Jongo do Irmão Café' (1981), gravado com o grupo Terreiro de Crioulo e a participação especial de Nei Lopes, constitui um dos momentos mais emocionantes do disco. O trabalho alinha-se tematicamente com 'Canteiro de obra', criando uma costura narrativa que aborda questões sociais e espirituais profundas da cultura afro-brasileira.

A interpretação de Marina Iris em 'Jongo do Irmão Café' revela domínio dos elementos rituais e ancestrais presentes na obra de Wilson Moreira, conectando o público contemporâneo com tradições profundas da música negra brasileira.

Abordagem artística respeitosa sem modernização desnecessária

Marina Iris canta Wilson Moreira com reverência autêntica, evitando invenções modistas ou tentativas de modernização. Seu tratamento respeita a atemporalidade da obra original, mantendo as características essenciais que tornam esses sambas significativos. Como Teresa Cristina, outra intérprete que compreende os meandros das rodas de samba, Marina Iris demonstra estar verdadeiramente dentro da roda, não como observadora externa, mas como participante genuína dessa tradição.

Importância do resgate e reconhecimento de Wilson Moreira

'Banzo batucada' surge em momento crucial para a música brasileira, quando compositores como Wilson Moreira correm o risco de serem esquecidos pelas gerações futuras. Marina Iris oferece ao público um álbum em forma de arte que ilumina a estatura de um compositor que permanece insuficientemente reverenciado fora dos círculos tradicionais do samba carioca.

Ainda que ocasionalmente um ou outro samba soe menos atraente no conjunto da obra, o disco entrega um tributo sólido e bem construído. A cantora demonstra compromisso genuine com a memória musical e a valorização de mestres que moldaram a identidade da música popular brasileira, devolvendo a Wilson Moreira o lugar de destaque que sempre mereceu.

Também em Cultura

Criptomoedas

Ethereum (ETH) $2,686 ▼ 2.62%
BNB $773 ▼ 2.27%
Solana (SOL) $115 ▼ 2.45%

Divisas

USD/EUR0.8764
EUR/GBP0.8595