Relatório 365 Dias

Música Sertaneja Domina Brasil: A Evolução de um Fenômeno Cultural

Música Sertaneja Domina Brasil: A Evolução de um Fenômeno Cultural
Imagem: g1.globo.com. Uso informativo; os direitos pertencem ao seu titular.

A Ascensão da Música Sertaneja como Fenômeno Nacional

A música sertaneja conquistou seu lugar como o gênero mais reproduzido no Brasil contemporâneo, conforme revelam os dados mais recentes da Pró-Música Brasil, entidade que monitora o mercado fonográfico nacional através das plataformas de streaming. Jonathan Scarello dos Anjos, artisticamente conhecido como Panda, alcançou o topo das paradas com a canção "Eu Te Seguro", demonstrando a força que a música sertaneja exerce sobre o público brasileiro atual.

Contudo, o sertanejo que domina as reproduções hoje representa uma transformação radical em relação àquele que nasceu nas gravações da virada entre os anos 1920 e 1930. A música sertaneja evoluiu significativamente, absorvendo influências diversas e adaptando-se continuamente às demandas do mercado e aos contextos sociais em que se insere.

As Raízes Históricas do Sertanejo Caipira

Estudiosos da história cultural brasileira, como o historiador Gustavo Alonso, professor na Universidade Federal de Pernambuco e autor de "Cowboys do Asfalto: Música Sertaneja e Modernização Brasileira", definem as transformações do sertanejo como processos de "antropofagia cultural", nos quais o gênero incorpora valores e expressões musicais de diferentes origens e contextos.

A primeira gravação reconhecida como marco fundador da música sertaneja ocorreu em 1929, quando a dupla Mariano e Caçula gravou "Jorginho do Sertão", composição do jornalista e folclorista Cornélio Pires, baseada em fragmentos de histórias populares. A gravação representou um feito notável: Cornélio Pires alugou um estúdio e financiou a prensagem com recursos próprios, pois nenhuma gravadora acreditava no potencial comercial da música caipira. Essa iniciativa é frequentemente apontada como o primeiro lançamento independente da história da música brasileira.

Mariano e Rubens da Silva, apelidado "Caçula", eram irmãos que viviam em Piracicaba, no interior paulista, e interpretavam a moda de viola, forma tradicional de expressão musical da região.

Cinco Fases Distintas da Evolução Sertaneja

Primeira Fase: A Consolidação Fonográfica (1929-1940)

Ivan Vilela, violeiro e pesquisador da Universidade de São Paulo, especialista reconhecido no tema e autor de "Cantando a Própria História: Música Caipira e Enraizamento", divide a história do sertanejo em cinco grandes períodos. O primeiro abrange o intervalo entre a gravação de Mariano e Caçula até a década de 1940, marcado pela profissionalização dos artistas e pela difusão através do rádio.

Durante esse período, a radiodifusão contribuiu significativamente para o processo de "reenraizamento" dos migrantes que deixavam o campo para habitar as grandes cidades. Cantores como Raul Torres, paulista nascido em Botucatu que inicialmente pretendia conciliar a carreira artística com a profissão de farmacêutico, reconheceram o potencial econômico da música sertaneja e dedicaram-se plenamente ao gênero. Torres formou uma das duplas mais importantes da época ao lado de Florêncio, nome artístico de João Batista Pinto.

Estima-se que nessa fase inicial, a música caipira já representava aproximadamente 40% da incipiente indústria fonográfica brasileira, consolidando-se como produto de mercado através do trabalho de músicos urbanos que abraçaram o segmento.

Segunda Fase: O Sucesso de Tonico & Tinoco (1940-1950)

A segunda fase da evolução da música sertaneja caracterizou-se pela disseminação radiofônica do gênero para cidades pequenas e zonas rurais. O maior expoente dessa época foi a dupla Tonico & Tinoco, formada pelos irmãos João Salvador Perez e José Salvador Perez, nascidos respectivamente em 1917 e 1920.

A carreira profícua da dupla alcançou números impressionantes: gravaram quase mil canções, lançaram 83 discos, venderam milhões de cópias e realizaram mais de 40 mil apresentações. Estima-se que tenham vendido aproximadamente 150 milhões de discos em todos os formatos, consolidando-se como a dupla que mais vendeu discos no mundo.

Tonico & Tinoco representaram um ponto de inflexão importante: a música caipira começava a ser ouvida por pessoas sem qualquer conexão afetiva ou biográfica com o mundo rural. Essa fase também estabeleceu o padrão da dupla com violão e viola, abandonando os instrumentais de choro utilizados anteriormente. Os compositores, frequentemente homens do campo que cresceram ouvindo rádio, incorporavam ritmos tradicionais como catira e folia de reis às suas composições.

Enquanto a primeira fase retratava o dia a dia agrícola, a segunda transformava a vida rural em narrativas impregnadas de saudade, dirigindo-se a um público progressivamente urbano que buscava uma válvula de escape sentimental na idealização do bucolismo.

Terceira Fase: Jovem Guarda e Modernização (1960-1970)

Nos anos 1960, a música sertaneja sofreu transformação substancial, incorporando elementos da Jovem Guarda. Essa alteração refletia a realidade demográfica brasileira: os filhos de migrantes, nascidos nas grandes cidades, constituíram uma nova audiência com educação tradicional em casa e moderna nas ruas, escolas e locais de trabalho.

Léo Canhoto & Robertinho, respectivamente Leonildo Sachi e José Simão Alves, inauguraram esse subgênero ao fusionar elementos da música caipira com guitarras elétricas e sonoridades tipicamente mexicanas. A temática amorosa ganhou proeminência nas letras, transformando a música sertaneja em cronista não apenas do mundo rural, mas também das realidades urbanas.

Quarta Fase: O Sertanejo Romântico (1980-1990)

Durante os anos 1980, a gravadora Sony promoveu uma modernização visual e sonora do gênero, originando o que se conhece como sertanejo romântico. Essa vertente abraçou elementos estéticos pop e incorporou influências da música romântica norte-americana que ganhava força naquele período.

Artistas como Chitãozinho & Xororó, Leandro & Leonardo, Zezé Di Camargo & Luciano, João Paulo & Daniel e Rick & Renner definiram essa fase com sucessos incontornáveis. Incorporou-se também o estilo brega, caracterizado por expressões exageradas de emoção amorosa. Somente nessa fase a música sertaneja foi formalmente reconhecida pela grande mídia como o gênero mais popular do país, embora já o fosse há décadas.

Quinta Fase: Sertanejo Universitário e Agronejo (2000-Presente)

Na virada do século emerge o sertanejo universitário, fase que se caracteriza pela fusão crescente com estilos pop, rock e axé. Os artistas dessa geração funcionam como "astros pop" que interpretam música pop em português segundo sua própria perspectiva estética. A temática das letras dialoga progressivamente com o público jovem urbano, navegando entre romantismo tradicional e a efemeridade das relações amorosas contemporâneas.

O feminejo, movimento surgido há aproximadamente uma década, representou mudança significativa ao destacar mulheres como vozes principais do gênero. Artistas como Marília Mendonça, Maiara & Maraísa, Simone & Simaria, Naiara Azevedo, Paula Mattos e Paula Fernandes tornaram-se as maiores expoentes dessa vertente.

Mais recentemente, emergiu o agronejo, subgênero que incorpora batidas eletrônicas e elementos de funk e pop ao sertanejo, frequentemente celebrando a cultura do agronegócio de forma acrítica. Essa vertente, que incorpora aspectos de ostentação e sensualidade em relações amorosas efêmeras, tem gerado discussões sobre sua apropriação por setores políticos específicos e sua conexão com estruturas de financiamento questionáveis.

A Transformação Social Refletida na Música

A especialista Gisele Jordão, coordenadora do curso de cinema e audiovisual da Escola Superior de Propaganda e Marketing, observa que a música sertaneja transformou-se a partir das mudanças na estrutura socioeconômica brasileira. O gênero evoluiu de registros das rotinas agrícolas e histórias locais para narrativas centradas na dor nostálgica do migrante desapontado nas áreas urbanas.

Com a expansão da fronteira pecuária para o Centro-Oeste, incorporou-se a exaltação do "heroísmo do boiadeiro". Gradualmente, as canções abandonaram referências predominantemente rurais, enfatizando sentimentalismos amorosos. No século atual, o foco deslocou-se para temáticas de flerte, consumo de bebidas, desencontros e ostentação de consumo.

O historiador Gustavo Alonso contextualiza essa evolução na dinâmica urbana brasileira: "A música sertaneja contemporânea é a música das cidades pequenas e médias. Grande parte desses artistas vieram das cidades pequenas e médias. O Brasil se tornou um país de cidades pequenas e médias." As grandes cidades cessaram seu crescimento acelerado nos anos 1990, enquanto cidades médias e pequenas expandem-se econômica e demograficamente, fenômeno que a música sertaneja reflete e celebra.

A Permanência da Dupla e a Importância Narrativa

Embora o modelo de dupla não seja mais predominante entre as estrelas do sertanejo universitário, cuja maioria segue carreira solo, a ideia da "dupla caipira" permanece enraizada no imaginário cultural. Essa forma de cantar origina-se dos primórdios das gravações de música caipira, frequentemente reunindo dois intérpretes, muitas vezes irmãos.

A particularidade técnica das duplas reside no canto em terças: quando um cantor entoa em dó, o outro canta em mi, criando uma harmonia específica que caracteriza o gênero desde suas origens, antes mesmo da indústria cultural abraçá-lo comercialmente.

Outra característica inerente ao sertanejo é a canção-crônica, narrativa que conta histórias. Essa tradição origina-se nas práticas de povos não-grafocêntricos que dependiam da música para preservar e transmitir suas histórias, pois a forma cantada mantém a integridade das narrativas através do tempo.

A Antropofagia Musical Contínua

A música sertaneja, em sua essência, constitui-se como expressão de antropofagia cultural, incorporando continuamente novas estéticas e gêneros. Exemplos dessa capacidade adaptativa abundam: "Ai Se Eu Te Pego", sucesso de Michel Teló, baseou-se em forró; artistas contemporâneos incorporam funk, reggaeton e até música eletrônica em suas composições.

Vilela enfatiza que "cada geração nova faz isso a seu modo", mantendo o sertanejo como "um grande guarda-chuva geral de gêneros popularzões" que absorve tendências musicais globais e as reinterpreta através da sensibilidade brasileira.

A especialista Anita Carvalho, empresária artística fundadora da Music Rio Academy e pesquisadora na ESPM, aponta que "o sertanejo sempre foi crônica: histórias de fazenda, de cidade do interior, do sujeito que foi parar na capital, além de traição, jogo e bebida, que são temas de toda música popular." O que efetivamente modificou-se foi o retrato do campo: o mundo rural converteu-se em agronegócio, e a música acompanhou essa transformação estrutural.

Características Musicais Intrínsecas

Vilela destaca que a música sertaneja mantém características etnomusicológicas muito específicas, com a presença de 17 ritmos distintos presentes no universo da música caipira. Essas particularidades instrumentais e rítmicas persistem como elementos identitários do gênero, independentemente das inovações estéticas e comerciais incorporadas ao longo das décadas.

Compreender a música sertaneja contemporânea exige reconhecer sua capacidade de transformação enquanto preserva elementos fundamentais de sua identidade cultural. O sucesso de Panda com "Eu Te Seguro" representa não o fim de uma trajetória evolutiva, mas mais um capítulo em uma história de contínua reinvenção que reflete, espelha e antecipa as mudanças na sociedade brasileira.

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