Banco Master fabricou documentos falsos com Word e PDFs

Investigação da Polícia Federal revela operação sistemática de falsificação
A Polícia Federal identificou uma estrutura sofisticada de fraude no Banco Master envolvendo a fabricação de documentos falsos através de ferramentas comuns de escritório e programas de tecnologia. O esquema investigado funcionava como uma verdadeira linha de montagem digital, onde dados reais de clientes eram transformados em documentação fraudulenta para sustentar operações fictícias com o Banco de Brasília (BRB).
Segundo o relatório técnico-pericial da corporação, o Banco Master utilizou o Microsoft Word, PDFs e códigos de programação para criar em massa documentos que aparentavam ser contratos legítimos. A operação funcionava de forma integrada, envolvendo diferentes departamentos e funcionários em etapas específicas da produção de papelação falsa.
Como funcionava a 'linha de montagem' de falsificação
Extração de dados reais de clientes
O primeiro passo da operação envolvia a coleta de informações genuínas de clientes. Funcionários do Banco Master acessavam os sistemas internos e extraíam dados de operações legítimas, especialmente do CredCesta, um produto de crédito consignado voltado a servidores públicos, aposentados e pensionistas.
Em 2 de julho de 2025, Fabrizio Pereira Alencar, coordenador de Controles do Back Office, solicitou a Vinicius Lucas Trentino, analista de Projetos Sênior da área de TI, um levantamento de CPFs através do Microsoft Teams. Vinicius criou o arquivo cpf_cessao.csv e executou a consulta Contratos_Henrique_Dados.sql no banco de dados interno, gerando a planilha Dados_cessão.xlsx.
A planilha reunia informações cadastrais dos clientes, incluindo nome, CPF, data de nascimento e nome da mãe. Esses dados passaram a servir como matéria-prima para a montagem dos documentos fraudulentos. Porém, conversas entre integrantes da área de tecnologia mostram que havia problemas na qualidade dos dados utilizados, com CPFs de pessoas que tiveram apenas uma proposta em 2019.
Produção em massa de procurações com Word
Com os dados compilados, Allan da Silva Machado, gerente de Operações I do Back Office, utilizou a função de mala direta do Microsoft Word para gerar procurações automaticamente. A ferramenta permite vincular um modelo de documento a uma planilha e preencher campos diferentes para cada registro.
Allan vinculou o arquivo PROCURACAO Master.docx à planilha Base de Geração CCBS AMANHA 1.xlsx, armazenada na pasta Demanda BRB-Tirreno 2700 amostras. O procedimento gerou 2.700 procurações em lote em uma única operação, no dia 20 de junho de 2025. Esse volume demonstra como a tecnologia era explorada para reproduzir rapidamente a mesma estrutura documental para milhares de pessoas.
Programas em C# para separar páginas de assinatura
A equipe de tecnologia do Banco Master desenvolveu aplicações específicas em C# registradas no repositório GitHub do banco. Uma das funções criadas tinha objetivo claro: extrair de arquivos PDF apenas a segunda página, precisamente a página de assinatura dos documentos originais.
A perícia identificou um arquivo compactado denominado erros-whatsapp.zip, enviado por Anderson Juliano Caspinelli Garcia a Moacir Lourenço da Silva Junior, contendo 1.833 arquivos PDF com páginas de assinatura isoladas dos Termos de Consentimento. Essas páginas podiam ser reutilizadas na montagem de novos conjuntos de documentos, aumentando a eficiência da operação fraudulenta.
A manipulação de datas e informações comprometedoras
Discrepância entre datas escritas e registros digitais
As Cédulas de Crédito Bancário (CCBs) foram assinadas digitalmente utilizando o certificado corporativo do Banco Master e certificados individuais de funcionários. No entanto, a perícia identificou uma das evidências mais fortes da manipulação nessa etapa.
Em diversos documentos, a data apresentada no corpo da CCB indicava uma data anterior, como 21 de janeiro de 2025. Porém, o registro criptográfico da assinatura digital mostrava que o arquivo havia sido assinado em 20 de junho de 2025, às 14h02min39s. Essa discrepância comprova que documentos exibidos com datas antigas foram efetivamente produzidos apenas meses depois.
Remoção sistemática de informações temporais
Para evitar que os documentos revelassem sua origem real, Allan Machado solicitou a Moacir Lourenço da Silva Junior que removesse as informações de data e hora dos Termos de Consentimento. A ordem foi comunicada através de conversa no Microsoft Teams em 20 de junho: 'e o termo de consentimento. e precisamos excluir a data'.
Um exemplo concreto foi identificado no Termo de Consentimento de Genilson Lima Leal. O documento originalmente apresentava o registro 24/02/2023 13:05. Em edição realizada em 3 de julho de 2025, às 15h26, esse campo foi apagado visualmente. Mesmo assim, vestígios digitais permitiram à perícia reconstruir a cronologia real dos eventos.
Montagem final dos dossiês fraudulentos
Após a produção e alteração das diferentes peças, elas precisavam ser apresentadas como um conjunto documental integrado. Allan utilizou o PDF24 para juntar os arquivos em um único PDF por operação, reunindo documentos como a CCB, a procuração e o Termo de Consentimento com as informações de data removidas.
Os arquivos finais eram organizados em pastas de rede: Demanda BRB-Tirreno 2700 amostras, Demanda BRB-Tirreno 299 amostras e Demanda BRB-Tirreno 119 amostras. Dessa forma, diferentes documentos produzidos ou modificados separadamente eram transformados em dossiês únicos, aparentando ser documentação legítima de operações reais.
Alteração de comprovantes bancários
A tentativa de apagar rastros chegou também aos comprovantes bancários. Em 25 de junho de 2025, Allan Machado discutiu com Romy Goerck Gentina Klenquen a alteração de comprovantes de transferências realizadas por SPB e PIX. O problema era que esses documentos apresentavam informações vinculando as operações ao histórico original.
Allan desejava remover três elementos: o evento, o número do contrato e o histórico. Entre as informações que apareciam estava 'LIBERAÇÃO CREDCESTA VIA PIX'. A dificuldade residia em realizar essas alterações em escala. Enquanto procurações e outros documentos podiam ser produzidos em massa, a alteração gráfica dos comprovantes encontrava limitações quando precisava ser repetida em 2.700 documentos.
Alcance da operação e envolvimento de dirigentes
A investigação também identificou o repasse de amostras da documentação falsificada para os níveis superiores do banco. Em 12 de junho de 2025, Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master, solicitou a Alberto Felix de Oliveira Neto um 'kit dos 300 com assinatura digital'. Alberto respondeu que providenciaria e informou que enviaria os links das procurações e da assinatura através de Allan.
Essas evidências demonstram que a documentação produzida na operação não ficava restrita aos funcionários responsáveis por sua montagem, alcançando a cúpula da instituição. Além disso, mensagens mostram preocupação com auditorias externas, como a da Deloitte, com sugestões de apresentar inconsistências como 'erros operacionais na seleção'.
O contexto maior: o esquema triangular entre Tirreno, Master e BRB
A operação de fabricação de documentos falsos no Banco Master integrava um esquema maior envolvendo a empresa de fachada Tirreno Consultoria e o Banco de Brasília. A Tirreno era utilizada para formalizar R$ 7,15 bilhões em cessões fictícias de crédito consignado, que o Banco Master posteriormente venderia ao BRB sem lastro real.
Segundo o material pericial, essa relação funcionou como um esquema de simulação e repasse de ativos ilíquidos. A 'linha de montagem' montada no Banco Master tinha o objetivo específico de forjar amostras e simular a legitimidade das operações, criando documentação que desse aparência de existência a uma carteira de créditos atribuída à Tirreno.
Limitações da fraude digital
Apesar da sofisticação do esquema, a própria estrutura digital deixava vestígios que a perícia conseguiu rastrear. O choque entre as datas escritas nos documentos e os registros das assinaturas digitais é um dos exemplos mais evidentes. A operação não dependia apenas da criação de documentos falsos; havia também uma segunda frente: tentar apagar ou modificar informações que poderiam revelar como e quando aqueles documentos haviam sido produzidos.
O objetivo era fazer com que uma sequência de arquivos fabricados em 2025 parecesse a documentação de operações realizadas anteriormente. No entanto, registros criptográficos, metadados de arquivos e outras informações digitais permitiram à Polícia Federal reconstruir a operação de forma detalhada e comprovar a fraude sistemática.




