Consumo Forte Desafia Juros Altos no Brasil

O Paradoxo do Consumo das Famílias no Brasil
A economia brasileira enfrenta um cenário intrigante que desafia as previsões convencionais. Mesmo com a taxa básica de juros alcançando seu maior patamar em duas décadas e as famílias lidando com níveis recordes de endividamento, o consumo das famílias no Brasil continua avançando de forma surpreendente. Este fenômeno econômico levanta questões importantes sobre a sustentabilidade do crescimento e os fatores que mantêm as compras aquecidas.
Mercado de Trabalho Robusto Sustenta as Despesas
O desempenho do mercado de trabalho brasileiro emerge como um pilar fundamental para entender a resiliência do consumo. No trimestre encerrado em abril, a taxa de desemprego atingiu 5,8%, representando o menor patamar registrado para esse período na série histórica do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Este dado evidencia a força do mercado de trabalho em absorver a população economicamente ativa.
Paralelamente, o rendimento real habitual dos trabalhadores atingiu R$ 3.732, marca 5,3% superior ao período correspondente do ano anterior. Esse crescimento da renda proporciona às famílias maior capacidade de consumo, mesmo diante do ambiente de taxas de juros elevadas. Adriana Beringuy, coordenadora de pesquisas domiciliares do IBGE, comenta que as pessoas precisam permanecer no mercado de trabalho para sustentar seu padrão de consumo, o que faz o mercado reagir aos efeitos adversos com certa sustentabilidade.
Políticas Públicas Ampliam o Poder de Compra
Além do desempenho do mercado de trabalho, diversas políticas públicas têm contribuído para manter o poder de compra das famílias em patamares elevados. O aumento real do salário mínimo, a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil, e o programa Desenrola 2.0, que promove alívio de dívidas, constituem medidas que sustentam os ganhos de renda da população.
André Sacconato, assessor econômico da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP), destaca que as transferências de renda acumuladas ao longo dos anos vão direto para o consumo imediato, como alimentação, vestuário e serviços. Essas políticas formam um colchão que amorteça o impacto dos juros elevados no orçamento das famílias.
Setores de Serviços Lideram o Crescimento
O Produto Interno Bruto (PIB) revelou um avanço do consumo das famílias de 1% em relação ao trimestre anterior e de 1,7% comparado ao mesmo período do ano passado. Esse crescimento não ocorre de forma homogênea na economia. Especialistas identificam que a digitalização crescente da economia impulsiona particularmente o setor de serviços.
Juliana Trece, coordenadora do núcleo de contas nacionais do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da Fundação Getulio Vargas (FGV), aponta que áreas como tecnologia, internet e telefonia, além de bares, restaurantes e viagens, funcionam como vetores principais do crescimento do consumo. Um aspecto particularmente notável é o aumento do consumo de bens duráveis, especialmente automóveis importados híbridos e elétricos, que costumam sofrer mais impacto em ambientes de juros elevados.
Consumo de Bens Não Duráveis Mantém Tendência
Entre os bens não duráveis, há predominância no consumo de itens essenciais, refletindo a necessidade das famílias de priorizar despesas fundamentais. Esse padrão de consumo oferece insights sobre o comportamento das famílias brasileiras frente aos desafios econômicos.
O Alerta do Endividamento Crescente
Apesar dos sinais positivos de crescimento do consumo, especialistas levantam bandeiras vermelhas em relação ao endividamento das famílias. Os dados mais recentes do Banco Central mostram que o indicador chegou a 49,8% em março, representando alta de 0,8 ponto percentual em relação ao mesmo mês de 2025. Essa trajetória ascendente coloca pressão especial sobre a classe média.
Sacconato adverte que a classe média enfrenta pressão considerável porque sustenta seu consumo cada vez mais por crédito, que se torna progressivamente mais caro. O levantamento do Banco Central evidencia ainda aumento significativo da inadimplência em praticamente todas as modalidades de crédito para pessoas físicas. Nas linhas com recursos livres, onde taxas e condições são definidas pelos bancos, o calote alcançou 7,2%, representando aumento de 1,2 ponto percentual em relação a abril de 2025.
Sustentabilidade em Questão
A inadimplência é particularmente grave porque representa o percentual de operações de crédito com atraso superior a 90 dias em relação ao saldo total. Essa métrica aponta para sinais de fragilidade no modelo de consumo atual. De acordo com Sacconato, o modelo econômico baseado em transferências de renda não é sustentável no longo prazo, pois aumenta o endividamento das famílias, a inadimplência e a necessidade de manter a taxa de juros Brasil elevada por mais tempo.
Perspectivas para o Consumo em 2026
Apesar da perspectiva de juros e inflação elevados nos próximos meses, economistas avaliam que o consumo das famílias deve continuar crescendo durante o presente ano. A projeção do FGV Ibre indica crescimento do consumo das famílias de 2,2% ao final do ano, superando o crescimento de 1,3% registrado no ano anterior.
Juliana Trece ressalta que o Banco Central deve ser cada vez mais cauteloso nos cortes de taxa de juros Brasil, enquanto o mercado de trabalho aquecido continua a ser um fator positivo. Considerando que se trata de um ano eleitoral, é provável que novos estímulos econômicos surjam por meio de programas de transferência de renda, mantendo a dinâmica de consumo em movimento.
Conclusão: Um Crescimento sob Vigilância
O fenômeno do consumo das famílias persistir apesar dos juros elevados representa um aspecto peculiar da economia brasileira 2026. A combinação de mercado de trabalho robusto, políticas públicas de transferência de renda e expansão do setor de serviços cria um ambiente onde as famílias conseguem manter seus gastos. No entanto, o aumento simultâneo do endividamento e da inadimplência sugere que essa dinâmica pode ter limitações de tempo, exigindo monitoramento contínuo por parte de formuladores de política econômica e instituições financeiras.




