Relatório 365 Dias

Indenizações do trabalho forçado nazista: vítimas cobram mais reparação

Indenizações do trabalho forçado nazista: vítimas cobram mais reparação
Fonte: g1.globo.com/trabalho-e-carreira/noticia/2026/06/21/vitimas-do-trabalho-forcado-nazista-ainda-cobram-reparacao-nao-compensou-nem-de-longe-os-danos.ghtml

Vinte e cinco anos de pagamentos insuficientes

A fundação alemã Memória, Responsabilidade e Futuro (EVZ) marca, neste mês, um quarto de século desde o início do pagamento de compensações aos últimos sobreviventes do trabalho forçado nazista. Porém, muitos daqueles que foram explorados durante o regime questionam se as reparações oferecidas realmente refletem a magnitude dos danos sofridos ao longo dos anos de perseguição e escravidão laboral.

Entre 2001 e 2007, a EVZ desembolsou € 4,4 bilhões, equivalentes a cerca de R$ 23,6 bilhões, beneficiando aproximadamente 1,66 milhão de ex-trabalhadores forçados e seus herdeiros legais distribuídos em cem nações. Apesar dessa cifra expressiva, especialistas apontam que tal montante representa apenas uma fração do necessário para uma verdadeira compensação pelos prejuízos ocasionados.

A magnitude dos danos não compensados

Pesquisas históricas revelam que entre 1933 e 1945 estima-se que aproximadamente 26 milhões de pessoas foram forçadas a trabalhar sob as ordens do regime nazista. Desse contingente, cerca de metade laborava em territórios ocupados além das fronteiras alemãs durante a Segunda Guerra Mundial. Esses indivíduos trabalhavam em fábricas, propriedades rurais, igrejas, residências particulares e empresas de diversos setores da economia.

Segundo cálculos de historiadores especializados, caso o trabalho forçado nazista tivesse sido integralmente indenizado, o fundo necessário teria que alcançar entre 90 bilhões e 112 bilhões de euros, aproximadamente R$ 483 bilhões a R$ 601 bilhões. Essa discrepância monumental evidencia o quão insuficientes foram as compensações efetivamente concedidas.

Andrea Despot, diretora da EVZ, reconheceu publicamente essa limitação: "Se você me perguntar: foi um fundo grande? Não, claro que não, considerando a injustiça". Ela prosseguiu afirmando que praticamente nenhum segmento da sociedade alemã deixou de se beneficiar da exploração do trabalho forçado, tornando impossível compensar adequadamente todos os prejudicados.

Origem e constituição da fundação

A EVZ foi oficialmente criada em julho de 2000 com duplo propósito: indenizar as vítimas do trabalho forçado nazista e financiar iniciativas dedicadas à proteção dos direitos humanos, à consolidação de valores democráticos e ao amparo dos sobreviventes do regime totalitário. A fundação foi constituída com um patrimônio inicial de 10,1 bilhões de marcos alemães, correspondendo a aproximadamente € 5,16 bilhões ou R$ 27,7 bilhões.

Esse montante foi arrecadado através de uma parceria entre o governo federal alemão, que contribuiu com metade dos recursos, e uma iniciativa privada que envolveu cerca de 6.500 empresas alemãs, denominada Iniciativa da Fundação da Indústria Alemã. Muitas dessas corporações, embora não em sua totalidade, haviam utilizado trabalho forçado durante o conflito mundial.

Compensações caracterizadas como simbólicas

Embora a Alemanha Ocidental houvesse implementado medidas reparatórias, como a Lei Federal de Indenização de 1953 voltada para pessoas perseguidas por motivos políticos, raciais ou religiosos, essas normativas deliberadamente excluíram os trabalhadores forçados do escopo de proteção. Durante os períodos de 1950 a 1980, sob pressão da sociedade civil, algumas grandes corporações ocidentais alemãs realizaram pagamentos voluntários em milhões de marcos, porém essas transferências não alcançaram populações da Europa Oriental.

Constantin Goschler, historiador da Universidade do Ruhr em Bochum e autor de uma compilação abrangente sobre o tema publicada em 2012, qualificou a solução final como "basicamente simbólica". Segundo seu relato, enquanto representantes das vítimas demandavam valores de pelo menos dois dígitos em bilhões, os pagadores buscavam limitar a cifra ao mesmo patamar numérico. O resultado dessa negociação psicológica resultou em 10 bilhões de marcos alemães, número que não refletia proporcionalmente a dimensão real dos danos causados.

Pressão internacional e ações coletivas

A alavanca que impulsionou as negociações de compensação foi a pressão jurídica internacional, particularmente através de ações coletivas promovidas por grupos nos Estados Unidos. Organizações judaicas, em especial, preparavam processos que ameaçavam expor publicamente as responsabilidades corporativas. Essa estratégia judicial forçou a Alemanha a negociar com os EUA objetivando obter segurança jurídica para o futuro.

De acordo com Despot, a compensação não resultou de uma decisão exclusivamente moral, mas de uma combinação de fatores: "Depois de décadas de reivindicações dos sobreviventes, houve pressão internacional, especialmente dos Estados Unidos e de organizações judaicas, que estavam preparando ações coletivas".

O fator Guerra Fria nas compensações tardias

A demora de mais de cinquenta anos para o Estado alemão oferecer compensações aos ex-trabalhadores forçados possui explicação historicamente fundamentada. Goschler identifica na Guerra Fria o motivo central: "Havia um princípio: não se enviava dinheiro para o outro lado da Cortina de Ferro". Isso significava que a Alemanha Ocidental se recusava sistematicamente a transferir recursos aos países da Europa Oriental, especialmente à Polônia.

Adicionalmente, ex-trabalhadores forçados nos territórios orientais frequentemente enfrentavam desconfiança em suas próprias comunidades. Mulheres que retornavam da experiência de trabalho escravo nazista eram frequentemente estigmatizadas como colaboradoras da economia de guerra alemã. Na antiga União Soviética, esses indivíduos eram submetidos a campos de triagem e viviam sob suspeita constante de terem traído seus países.

Quando finalmente iniciadas, muitos sobreviventes demonstravam maior interesse no reconhecimento histórico do que nas cifras monetárias. O certificado que comprovava seu status de vítima, em contraposição à pecha de traidor, representava valor inestimável para essas populações.

Trabalho contínuo em defesa dos direitos humanos

Embora os pagamentos de indenizações tenham sido concluídos há anos, a atuação da EVZ prossegue de forma ampliada. A organização Jewish Claims Conference estima que aproximadamente 200 mil sobreviventes judeus vivem espalhados pelo mundo, além de várias centenas de milhares de europeus orientais, sinti, roma e ex-prisioneiros políticos que experimentaram trabalho forçado sob o regime nazista. Números precisos para esses segmentos nunca foram oficialmente estabelecidos.

Atualmente, a EVZ funciona como entidade beneficente, financiando projetos dedicados à promoção dos direitos humanos, à consolidação de valores democráticos e à educação histórica. O principal objetivo contemporâneo é preservar a memória coletiva sobre o período nazista e o sistema de trabalho forçado que beneficiou inúmeras empresas alemãs.

Em 2025, a fundação foi classificada como "organização indesejável" pelo governo russo após manifestar apoio à Ucrânia. Despot justificou tal posicionamento afirmando que Ucrânia, Belarus e Rússia foram profundamente marcadas pela ocupação alemã genocida e exploratória, tornando-se parceiros naturais no trabalho de memória histórica. Atualmente, a EVZ apoia organizações russas e belarussas forçadas ao exílio por seus respectivos governos.

Também em Economia