Relatório 365 Dias

Pedidos de pesquisa em terras raras crescem 300%, mas orçamento ameaça avanço

Pedidos de pesquisa em terras raras crescem 300%, mas orçamento ameaça avanço
Fonte: g1.globo.com/economia/noticia/2026/06/20/pedidos-de-autorizacao-de-pesquisa-para-terras-raras-explodem-mas-agencia-teme-que-bloqueios-orcamentarios-causem-prejuizos.ghtml

Explosão de demanda por terras raras no Brasil

O Brasil enfrenta um fenômeno sem precedentes no setor mineral: a procura por autorizações de pesquisa em terras raras atingiu níveis extraordinários. De acordo com levantamento realizado pela Agência Nacional de Mineração (ANM), as terras raras tornaram-se o centro de atenções de empresas e investidores, refletindo a importância crescente desses insumos na economia global. Desde 2023, o número de requerimentos disparou de forma impressionante, contrastando dramaticamente com o histórico anterior.

Os números são reveladores sobre o interesse despertado pelas terras raras. Apenas entre 2023 e junho deste ano foram registrados aproximadamente 3 mil pedidos de autorização. Para contextualizar essa explosão, entre 1975 e 2022 foram contabilizados apenas 745 requerimentos em todo esse período de quase cinco décadas. Esse crescimento vertiginoso evidencia como a percepção da relevância estratégica desses minerais transformou completamente o panorama das atividades minerárias brasileiras.

O que são terras raras e sua importância estratégica

As chamadas terras raras constituem um grupo de 17 elementos químicos encontrados na natureza, frequentemente dispersos em outros minérios e de extração complexa. Apesar de desconhecidas do grande público, esses materiais desempenham papel absolutamente crítico nas economias modernas e na segurança nacional de diversos países.

A relevância das terras raras manifesta-se em múltiplas aplicações tecnológicas e industriais. Elas são componentes essenciais na fabricação de turbinas para parques eólicos, baterias para automóveis elétricos, cabos de transmissão de energia, sistemas de foguetes, equipamentos médicos sofisticados, tecnologias militares e dispositivos eletrônicos de ponta. Sua importância transcende a esfera puramente econômica, assumindo dimensões geopolíticas significativas.

Na transição energética global, esses minerais possuem posição central, integrando praticamente todas as soluções tecnológicas para fontes renováveis e armazenamento de energia. Simultaneamente, seu acesso estratégico influencia negociações diplomáticas entre potências mundiais e define capacidades de defesa nacional. O Brasil, detentor das maiores reservas planetárias após a China, encontra-se em posição privilegiada para exercer protagonismo nesse contexto geopolítico.

Potencial brasileiro e posicionamento global

A abundância de terras raras em território brasileiro apresenta oportunidade histórica para o país ampliar sua participação na cadeia global desses minerais críticos. Reconhecendo essa importância, o Estado brasileiro vem firmando acordos de cooperação e memorandos de entendimento com diversas nações, visando acelerar pesquisas e investimentos no segmento.

Essas iniciativas diplomáticas refletem compreensão clara sobre a importância estratégica do setor para o futuro econômico e geopolítico brasileiro. Porém, o progresso nessa agenda enfrenta obstáculos significativos relacionados à estrutura institucional de apoio.

Ameaças orçamentárias comprometem objetivos estratégicos

Paradoxalmente, quando o Brasil amplia comprometimentos internacionais relacionados às terras raras, enfrenta severas restrições orçamentárias que podem inviabilizar o cumprimento desses acordos. A Agência Nacional de Mineração sofrerá bloqueio de R$ 22,7 milhões em seu orçamento, conforme alerta do diretor-presidente Mauro Sousa.

Segundo Sousa, essa restrição forçará a revisão de prioridades em contexto de escassez de recursos crônicos. As atividades relacionadas às terras raras encontram-se particularmente vulneráveis, pois operam em setor com estrutura já considerada modesta. O departamento responsável pelos minerais críticos e estratégicos conta apenas com quatro servidores que coordenam todos os estudos e ações relacionados ao tema.

Mauro Sousa expressou preocupação contundente sobre essa contradição institucional: "Somos falhos quando cortamos recursos que não permitem que aquilo que foi acordado seja efetivamente cumprido. Isso é uma contradição do Estado brasileiro". Essa afirmação sintetiza o dilema enfrentado pela ANM: ampliar compromissos internacionais sem possuir estrutura adequada para implementá-los adequadamente.

Impactos nas operações e fiscalização

Os cortes orçamentários estenderão efeitos prejudiciais além das atividades de pesquisa em terras raras. Leilões de áreas para exploração mineral sofrerão atrasos, enquanto ações de fiscalização de infraestruturas críticas serão severamente comprometidas. O bloqueio colocará em risco a execução de vistorias técnicas em barragens e pilhas de mineração, afetando aproximadamente 43 barragens e 18 pilhas que deveriam receber inspeções até o final do ano.

Essas inspeções técnicas não constituem formalidades administrativas, mas subsidiam decisões regulatórias fundamentais e avaliações de segurança operacional. Muitas estruturas previstas para vistoria exigem monitoramento contínuo devido ao potencial impacto social, ambiental e econômico que representam, particularmente aquelas localizadas em proximidade com comunidades e áreas ambientalmente sensíveis.

Atrasos na tramitação de processos minerários

A restrição de recursos afeta igualmente etapas essenciais para análise de processos minerários. Vistorias de campo constituem requisitos indispensáveis para aprovação de Relatórios Finais de Pesquisa e de Planos de Aproveitamento Econômico (PAEs), documentos que detalham como jazidas serão exploradas comercialmente. Sem essas verificações presenciais, a tramitação dos processos sofrerá atrasos significativos, retardando investimentos e a entrada de novos empreendimentos em operação.

Essa situação cria cenário preocupante onde o crescimento exponencial no interesse por terras raras não encontra respaldo institucional adequado para viabilizar seu desenvolvimento. O Brasil enfrenta momento crítico onde seu potencial estratégico não se traduz em realidade operacional, comprometendo oportunidades econômicas e geopolíticas que poderiam consolidar sua posição como fornecedor global de minerais essenciais para transição energética e tecnologia de ponta.

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