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Trump quer renomear IA para Superinteligência

Trump quer renomear IA para Superinteligência
Imagem: g1.globo.com. Uso informativo; os direitos pertencem ao seu titular.

O novo foco de Trump: renomear a inteligência artificial

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tem direcionado seus esforços recentemente para uma agenda pouco convencional: alterar a nomenclatura da inteligência artificial. Segundo Trump, o termo inteligência artificial soa como algo fictício e precisa ser substituído por superinteligência, uma expressão que, em sua visão, melhor representa a realidade tecnológica atual. A proposta gerou debates intensos entre especialistas, políticos e profissionais da área de tecnologia em todo o mundo.

Durante seu discurso perante a Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Trump declarou que considera o nome inteligência artificial inadequado para descrever a tecnologia contemporânea. Ele anunciou sua intenção de que todos os documentos oficiais dos Estados Unidos, e idealmente do mundo inteiro, passem a utilizar o termo superinteligência em lugar de inteligência artificial.

As enquetes e a mudança de posicionamento

Antes de se decidir definitivamente pela palavra superinteligência, Trump promoveu consultas públicas em sua rede social Truth Social. A primeira enquete oferecia aos usuários três alternativas: Inteligência Superior, Inteligência Extrema e Inteligência Suprema, todas traduzidas para o português. Poucos dias depois, lançou uma segunda votação, desta vez com apenas duas opções: Superinteligência e Inteligência Superior.

Notavelmente, Trump não forneceu explicações detalhadas sobre como a mudança terminológica seria implementada ou se contava com apoio do setor tecnológico para tal transformação. O que tornou a situação ainda mais polêmica foi sua declaração posterior de que trataria como inimigos aqueles que continuassem utilizando a expressão inteligência artificial em lugar de superinteligência.

Por que renomear a inteligência artificial é mais complexo do que parece

Para compreender as dificuldades associadas a uma mudança terminológica deste porte, é essencial reconhecer que o conceito de inteligência artificial existe há mais de sete décadas. A tecnologia permeia o cotidiano das pessoas há muito tempo, passando por transformações significativas nas últimas décadas, muito antes do surgimento do ChatGPT, que popularizou o tema recentemente.

Anderson Soares, apontado como o brasileiro mais influente na área de inteligência artificial e fundador do Centro de Excelência em Inteligência Artificial (CEIA) da Universidade Federal de Goiás, explica que o próprio conceito de inteligência carece ainda de uma definição precisa, tanto nas ciências biológicas quanto no campo da tecnologia. Para Soares, o que denominamos inteligência artificial corresponde à capacidade das máquinas executarem atividades associadas à inteligência humana.

Conforme avaliação de Soares, o objetivo aparente de Trump parece ser mais um movimento político para desacelerar o desenvolvimento da inteligência artificial do que propriamente uma contribuição construtiva para o avanço tecnológico. Ele questiona a sinceridade da proposta ao considerá-la mais um contraataque do que uma iniciativa genuína de progresso.

Perspectivas de especialistas sobre a iniciativa de Trump

Cleber Zanchettin, docente de Engenharia da Computação na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e pesquisador especializado em inteligência artificial, ressalta que o discurso pronunciado por Trump na ONU revelou claramente uma estratégia de marketing. Trump mencionou bem-vindos ao novo mundo da superinteligência, seguido pela expressão vamos ver se isso vai dar certo, indicando uma jogada comunicacional carente de efetividade prática real.

O professor e pesquisador Allan Pscheidt interpreta a proposta de Trump sob uma perspectiva distinta. Para ele, não se trata de uma modificação na definição científica ou técnica da tecnologia, mas de uma demonstração de poder e soberania tecnológica dos Estados Unidos no contexto internacional de desenvolvimento de inteligência artificial. Pscheidt traça paralelos com a corrida espacial histórica, sugerindo que o mundo está vivenciando atualmente uma corrida pela AGI, ou Inteligência Artificial Geral.

Segundo Pscheidt, ao introduzir o termo superinteligência, Trump estaria comunicando ao cenário global que os Estados Unidos alcançarão a AGI em breve, demonstrando sua supremacia tecnológica. A Inteligência Artificial Geral refere-se a uma forma de inteligência capaz de executar uma amplitude variada de tarefas intelectuais em patamar equivalente ou superior ao das capacidades humanas, embora não haja até o momento comprovação científica de sua existência.

Preocupações quanto ao impacto público da renomeação

Zanchettin alerta para um risco significativo associado à proposta de renomear inteligência artificial. Dado que grande parcela da população ainda possui conhecimento limitado sobre tecnologia, produtos rotulados como inteligência artificial já enfrentam rejeição ou temor no mercado. Introduzir expressões como superinteligência ou inteligência suprema poderia amplificar essa percepção de ameaça aos seres humanos, aumentando a rejeição pública da tecnologia.

Dados corroboram essa preocupação. Pesquisa recente do Pew Research Center evidencia que mais da metade dos brasileiros, especificamente 52%, relata maior preocupação do que entusiasmo em relação ao avanço da inteligência artificial. Nos Estados Unidos, a situação é semelhante: aproximadamente nove em cada dez americanos expressam maior preocupação do que animação com a possibilidade de a inteligência artificial superar a capacidade intelectual humana, conforme levantamento da CNN publicado em setembro.

As origens históricas do termo inteligência artificial

O termo inteligência artificial nasceu do trabalho colaborativo de pesquisadores provenientes de diversas disciplinas, incluindo engenharia, matemática e estatística. Esses profissionais dedicavam-se a compreender como criar máquinas demonstradoras de raciocínio e inteligência análogos aos dos seres humanos, como explica Zanchettin.

A nomenclatura foi formalizada oficialmente em meados de 1955, nos Estados Unidos, emergindo do trabalho de pesquisadores notáveis como John McCarthy, Marvin Minsky, Claude Shannon e Nathaniel Rochester. Esses cientistas necessitavam de uma nomenclatura apropriada para pesquisas que integravam matemática, engenharia e estatística visando criar máquinas capazes de exibir raciocínio, algo que não se enquadrava nas categorias de software tradicional daquele período histórico.

Contudo, investigações relacionadas a máquinas pensantes principiaram anteriormente. Entre os anos 1940 e 1950, o matemático e cientista computacional Alan Turing já explorava essa possibilidade. Simultaneamente, em 1948, o matemático Norbert Wiener cunhou o termo cibernética para estudar sistemas capazes de utilizar informações sobre suas próprias operações para modificar seu funcionamento.

Foi precisamente neste contexto que John McCarthy formulou a expressão inteligência artificial em 1955. A seleção terminológica buscava também diferençar esse domínio de investigação da cibernética, com direcionamento específico para o raciocínio e a autonomia das máquinas.

A evolução e a presença cotidiana da inteligência artificial

Com o progresso e a difusão da tecnologia, inteligência artificial se tornou componente integrado da vida diária das pessoas. A tecnologia está presente em reconhecimento facial de instituições bancárias, veículos semiautônomos, drones, alto-falantes inteligentes e sistemas de câmera em dispositivos móveis.

A partir do ano 2017, ganhou destaque especial a inteligência artificial generativa, que proporcionou o surgimento de ferramentas revolucionárias como o ChatGPT. Essa categoria de inteligência artificial é capaz de produzir textos, imagens, vídeos e composições musicais, transformando significativamente o cenário tecnológico contemporâneo.

Para Anderson Soares, as ondas tecnológicas frequentemente percorrem fases relativamente previsíveis em sua trajetória. Inicialmente, provocam medo e desconfiança entre o público. Posteriormente, vem a aceitação gradual e o encantamento com as possibilidades. Com transcurso temporal, a tecnologia passa a ser compreendida melhor e deixa de parecer algo extraordinário ou aterrorizante, integrando-se naturalmente à sociedade.

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