Relatório 365 Dias

Advogado Tomaz possui seis propriedades em ilhas de Angra

Advogado Tomaz possui seis propriedades em ilhas de Angra
Imagem: g1.globo.com. Uso informativo; os direitos pertencem ao seu titular.

Portfólio imobiliário do advogado em Angra dos Reis

O advogado Willer Tomaz, atualmente investigado no Supremo Tribunal Federal (STF) juntamente com o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) por suspeitas de lavagem de dinheiro, possui um extenso portfólio de propriedades em Angra dos Reis. Além do imóvel que se tornou centro de disputa com o jogador Richarlison, Tomaz acumula outras cinco casas localizadas em ilhas da região da Costa Verde fluminense. Este patrimônio imobiliário concentra-se majoritariamente em terrenos adquiridos entre 2021 e 2022, período coincidente com apresentação de projetos legislativos que poderiam beneficiar economicamente a região.

A maioria dos imóveis foi adquirida por empresas vinculadas ao advogado durante uma janela temporal estratégica. As compras ocorreram simultaneamente a iniciativas parlamentares destinadas a flexibilizar regulamentações ambientais e permitir maior exploração econômica das áreas preservadas de Angra dos Reis, o que levanta questões sobre possíveis conexões entre os investimentos imobiliários e os projetos de lei apresentados.

Detalhamento das propriedades adquiridas

De acordo com levantamentos realizados nos sistemas da Secretaria de Patrimônio da União (SPU) e em registros cartorários, a Ilha Comprida concentra quatro das propriedades de Tomaz. A primeira, adquirida em setembro de 2021 pela empresa WT Administração de Imóveis e Bens, possui terreno de 175,2 mil metros quadrados, com valor patrimonial registrado em R$ 5,7 milhões.

Uma segunda propriedade na mesma ilha, também comprada em setembro de 2021, abrange 32,8 mil metros quadrados, avaliada em R$ 2,1 milhões. A terceira casa na Ilha Comprida, adquirida igualmente em setembro de 2021, apresenta terreno de 181,8 mil metros quadrados e valor patrimonial de R$ 6 milhões. Todas essas três transações ocorreram no mesmo mês, evidenciando operações concentradas num período específico.

A quarta propriedade na Ilha Comprida diferencia-se por ser objeto de disputa com Richarlison. Comprada em julho de 2022 pela WT Administração de Imóveis e Bens, possui terreno menor com apenas 2,1 mil metros quadrados, porém registra valor patrimonial superior, fixado em R$ 2,9 milhões. Este imóvel tornou-se emblema da controvérsia envolvendo o advogado e o senador bolsonarista.

Propriedades adicionais e participações societárias

Na Ilha do José André, localizada dentro da Área de Proteção Ambiental (APA) de Tamoios, Tomaz possui propriedade adquirida ainda em 2008 pela empresa Friponor Brasil Turismo, Empreendimentos e Participações. Este terreno, com 57,3 mil metros quadrados, apresenta valor patrimonial registrado em R$ 23,7 milhões, configurando-se como o imóvel de maior valor neste portfólio insular.

Uma sexta propriedade, sob a forma de cotas, localiza-se na Ilha do Jorge, registrada em nome da empresa Real Estate Duo 4, pertencente ao grupo Prime You. Segundo informações disponibilizadas, Tomaz adquiriu participação de 25% nesta propriedade em 2022. A Prime You funciona como empresa especializada em administrar bens de luxo compartilhados por indivíduos de alta renda, gerenciando aviões, embarcações e mansões.

Cronologia suspeita: compras e projetos legislativos

A sequência cronológica das aquisições imobiliárias de Tomaz apresenta coincidências significativas com as ações legislativas de Flávio Bolsonaro. Em 28 de setembro de 2021, Tomaz completou a aquisição de três casas na Ilha Comprida. Apenas quinze dias depois, em 13 de outubro de 2021, Flávio apresentou projeto visando criar uma Região Administrativa Integrada de Desenvolvimento Sustentável (Rides) abrangendo Angra dos Reis, Mangaratiba e Paraty.

Este Projeto de Lei Complementar nº 157/2021 objetiva estimular turismo e economia, mas também autoriza a municipalização de unidades de conservação federais e estaduais, flexibilizando regras para exploração econômica. Na justificativa do projeto, o senador comparou a região a destinos turísticos globais como Tailândia, Filipinas, Cancun, Grécia, Jamaica, Bahamas, Fiji e República Dominicana, ressaltando o potencial de geração de receitas.

Simultaneamente, Flávio assumiu papel como relator da PEC das Praias no Senado Federal, proposta que visa permitir a privatização de ilhas marítimas atualmente pertencentes à União. Elaborou dois relatórios para a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) prevendo excluir terrenos de marinha da lista de bens federais, permitindo privatização por ocupantes.

Antecedentes da ambição sobre Angra dos Reis

Os planos para transformação econômica da Costa Verde fluminense remontam ao governo Jair Bolsonaro. Em maio de 2019, o então presidente declarou sua intenção de transformar Angra dos Reis em uma "nova Cancun". Naquela ocasião, afirmou que o estado merecia possuir empreendimento similar, e que trabalhava para viabilizá-lo, mencionando que dependeria de decreto presidencial.

Bolsonaro criticava a Estação Ecológica de Tamoios, argumentando que não preservava adequadamente a região e impedia aproveitamento de área que poderia gerar bilhões de reais anuais em receitas turísticas. Esta narrativa sobre desbloqueio econômico e desenvolvimento turístico permanece central nas justificativas dos projetos legislativos posteriores.

O embate com Richarlison e procedimentos administrativos

O conflito entre Tomaz e o atacante Richarlison de Andrade, do Tottenham e ex-selecionado brasileiro, ganhou repercussão nacional quando o jogador publicou vídeos em outubro acusando Flávio Bolsonaro de envolvimento na disputa pelo imóvel de luxo. Os vídeos acumularam milhões de visualizações durante o período eleitoral.

Richarlison relatou que ocupava a casa na Ilha Comprida desde 2020, investindo R$ 10 milhões por meio de sua empresa Sport 70. Segundo sua versão, Flávio visitou sua propriedade e demonstrou interesse, mas recusou-se a vender. Alega que o senador se aliou a Tomaz para obter os direitos sobre o imóvel.

A análise dos processos da SPU revela procedimentos administrativos profundamente distintos. A Sport 70, empresa de Richarlison, solicitou regularização em 20 de setembro de 2021, porém o processo não evoluiu. Já a solicitação de Tomaz, inicialmente feita por terceira empresa (M Locadora de Veículos) em 5 de maio de 2022, recebeu tramitação célere e favorável. A emissão da Certidão de Autorização para Transferência (CAT) ocorreu no mesmo dia do pedido, entre as 11h33 e 13h13.

Projeto de resort e questões ambientais

Na Ilha do José André, Tomaz planejava construir empreendimento de grande vulto incluindo resort de luxo equipado com piscinas, beach club, spa, restaurante, áreas para eventos, hangar e heliponto. Para viabilizar a expansão das construções, apresentou pedido ao Instituto Estadual do Ambiente (Inea) em 20 de março de 2026, coincidindo com decreto do então governador Cláudio Castro revogando planos de manejo de áreas de proteção ambiental.

O decreto subsequentemente foi derrubado pelo desembargador Ricardo Couto, que assumiu o governo estadual. Castro negou qualquer discussão prévia com Tomaz sobre o conteúdo da medida, sustentando que possuía caráter geral e técnico. Tomaz recusou-se a comentar sobre este episódio específico.

Investigações e posicionamentos

Quando questionado sobre projetos comerciais previstos para suas ilhas e sua relação com propostas legislativas de Flávio Bolsonaro, Willer Tomaz não se manifestou. O senador também não foi localizado pela reportagem. Ambos confirmam amizade pessoal, porém negam existência de negócios compartilhados.

Tomaz mudou-se para os Estados Unidos em agosto, após sofrer operação da Polícia Federal. Flávio deslocou-se para a Flórida dois dias após derrota no segundo turno das eleições presidenciais para Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Marco regulatório das ilhas brasileiras

Conforme a Constituição Federal, as ilhas constituem bens da União. Empresas e indivíduos podem ocupá-las mediante processos de aforamento ou ocupação registrados na SPU, órgão responsável pela gestão. Tais ocupações podem ser revistas pelo órgão. Em setembro de 2024, a SPU emitiu nota técnica contrária à PEC das Praias, argumentando que aprovação favoreceria "amplamente as condições jurídicas para a grilagem de toda costa brasileira em favor da população mais abastada do país".

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