Relatório 365 Dias

De la Espriella e Cepeda: dois modelos opostos na eleição colombiana

Os dois projetos na eleição colombiana

A eleição colombiana deste domingo (21 de junho) coloca frente a frente dois candidatos com visões radicalmente diferentes sobre o futuro do país. A disputada corrida presidencial entre Abelardo de la Espriella e Iván Cepeda representa, na verdade, duas Colômbias completamente distintas em seus modelos políticos, econômicos e sociais. No primeiro turno, De la Espriella conquistou 43,7% dos votos contra 40,9% de Cepeda, mantendo uma competição equilibrada que segue polarizando a nação caribenha.

A eleição colombiana evidencia não apenas diferenças programáticas, mas também escolhas fundamentais sobre valores, segurança e desenvolvimento. De la Espriella, advogado e figura outsider na política, defende uma abordagem conservadora e de linha dura. Sua plataforma ecoa propostas de líderes como Donald Trump nos Estados Unidos, Javier Milei na Argentina e Nayib Bukele em El Salvador. Por sua vez, Cepeda, senador e filósofo, apresenta uma agenda progressista com reformas sociais amplas e uma perspectiva conciliadora em segurança, dando continuidade ao governo do presidente Gustavo Petro.

Divisões territoriais e econômicas na Colômbia

Uma das características mais marcantes da eleição colombiana é a clara divisão geográfica do voto. Desde 2016, quando um plebiscito sobre o acordo de paz com as Farc dividiu o país, as regiões vêm votando de forma consistente. As periferias do país, compostas por áreas historicamente marginalizadas e mais afetadas pela violência, tendem a apoiar candidatos progressistas como Cepeda. Entretanto, o centro do país, atravessado pelos Andes e integrado por um sistema agroindustrial robusto, inclina-se para opções conservadoras.

Yann Basset, cientista político da Universidade do Rosario, explica que essas distinções refletem estruturas econômicas profundas. O centro vive de um modelo agroindustrial conectado às cidades, enquanto as periferias dependem principalmente de uma economia extrativista. Essas regiões periféricas, que coincidem com litoral, Amazônia e fronteira com a Venezuela, também abrigam populações afro-colombianas e indígenas que formam parte importante da base eleitoral de Cepeda.

Diferenças nos estratos socioeconômicos

Na eleição colombiana, a renda também define preferências claras. Basset observa que os estratos de renda mais baixa votaram significativamente em Cepeda no primeiro turno, enquanto os grupos de renda média e alta preferiram De la Espriella. Essa divisão reflete também propostas econômicas opostas: De la Espriella propõe reduzir o tamanho do Estado e diminuir impostos para empresas, enquanto Cepeda defende aumentar o papel estatal, transformar o campo em motor econômico e apoiar pequenas empresas.

Raízes históricas do voto colombiano

A eleição colombiana não nasce do nada. Felipe Arias Escobar, historiador especializado em política colombiana, identifica uma herança clara dos antigos Partidos Conservador e Liberal. As regiões andinas votavam tradicionalmente conservador, enquanto o litoral apoiava os liberais. Embora esses partidos tenham dominado a política até o século 20, suas bandeiras ressurgem através de novos movimentos políticos.

Essa continuidade explica por que setores que votavam no Partido Conservador, depois no ex-presidente Álvaro Uribe, agora simpatizam com a versão populista das direitas representada por De la Espriella. Similarmente, grupos que apoiavam o Partido Liberal e depois o presidente Juan Manuel Santos migraram para opções progressistas como Cepeda e Petro. Porém, Arias Escobar ressalta que falar em eleitores "mecânicos" seria impreciso: as cidadanias são diversas e voláteis, capacitadas de mudar de preferências conforme novas circunstâncias.

O movimento de 2021 e a eleição colombiana

Um evento crucial moldou o panorama atual: em 2021, durante o governo conservador de Iván Duque, uma explosão social eclodiu contra o modelo econômico, a injustiça e a política tradicional. Essas manifestações, marcadas por episódios de violência e repressão estatal criticada pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos, visibilizaram demandas identitárias de novas cidadanias.

Diversos analistas vinculam essa mobilização ao voto em Petro e, agora, em Cepeda. Simultaneamente, o surgimento de De la Espriella representa uma recomposição das direitas que busca frear esse impulso de mudança. A eleição colombiana, portanto, também reflete uma colisão entre movimentos de reforma e reações conservadoras originadas naquela convulsão de 2021.

Valores e identidades em transformação

Juan Fernando Giraldo, especialista em opinião pública e marketing político, aponta que as identidades políticas tornaram-se menos estáticas que nos anos 1940 e 1950, quando uma pessoa dizia ser conservadora e isso definia completamente sua cosmovisão. Na eleição colombiana contemporânea, encontram-se cidadãos com apetites contraditórios: alguns buscam autoridade forte e valores cristãos, enquanto outros recalibram essas prioridades de forma distinta.

Os valores e a autoridade são centrais na campanha de De la Espriella, que promove linha dura contra crime e princípios religiosos cristãos. Porém, mesmo que 80% da Colômbia se identifique como católica e outros 10% como cristã, isso não garante apoio automático às posições conservadoras. Muitos eleitores colombianos se informam e se expressam de forma menos intensa sobre ideologia, votando em candidatos muito distantes entre si sem necessariamente se identificar com polarizações apresentadas.

A eleição colombiana além da polarização

Giraldo sustenta que a leitura da eleição colombiana como profundamente polarizada é, em certa medida, uma análise superanalisada das elites. Quando se conversa nas cidades e zonas rurais, as preocupações giram menos em torno de direita versus esquerda e mais sobre questões sensíveis de cidadania que mudam facilmente: segurança, emprego, educação e acesso a serviços.

O marketing de De la Espriella explorou efetivamente mensagens claras sobre família, autoridade e combate firme ao crime. Similarmente, a aposta da esquerda em se unificar em torno de Petro traduziu-se em elevada intenção de voto para Cepeda, embora muitos eleitores se entusiasmem com a forma como Petro fala sem necessariamente se considerarem de esquerda ou defensores de direitos das minorias.

Perspectivas para o segundo turno

A eleição colombiana deste domingo será decidida por essas complexidades. Não se trata simplesmente de escolher entre duas Colômbias monolíticas, mas de uma sociedade diversa, com demandas múltiplas e eleitores que navegam entre identificações políticas fluidas. Cepeda e De la Espriella representam opciones genuinamente diferentes, mas a realidade dos votantes transcende a dicotomia apresentada nas cédulas. A eleição colombiana refletirá, portanto, não apenas uma escolha ideológica, mas um julgamento sobre qual modelo de gestão, valores e prioridades deve guiar o país nos próximos anos.

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