Indústria argentina enfrenta crise com fechamento de fábricas

A crise que assola a indústria argentina
A crise indústria argentina atinge níveis preocupantes, com fábricas encerrando operações e milhares de trabalhadores perdendo seus empregos. O cenário é particularmente visível em estabelecimentos como a Kioshi, fábrica de sapatos localizada em Esteban Echeverría, nos arredores de Buenos Aires, que em 2023 contava com 120 funcionários e hoje opera com apenas 14. As máquinas permanecem desligadas, os galpões escuros, e mercadorias se acumulam sem movimento.
Desde que Javier Milei assumiu a presidência em dezembro de 2023, a crise indústria argentina se intensificou, com aproximadamente 30 mil empresas fechando as portas. A situação reflete uma contradição central nas políticas do governo ultraliberal: enquanto a inflação caiu de três dígitos para 33,8% ao ano em julho, a atividade econômica do setor manufatureiro entrou em colapso.
O impacto do desemprego e da retração do consumo
Emmanuel Fernández, diretor da Kioshi, descreve um mercado interno devastado. "O mercado interno está morto, as pessoas não têm dinheiro para consumir, dificilmente vão comprar calçados", explica, apontando também para uma "avalanche de importação" que pressiona ainda mais os negócios locais.
Os números oficiais revelam a profundidade da crise. Em junho, a indústria argentina operava com cerca de 40% de capacidade ociosa. A produção manufatureira registrou queda de 5% entre junho e julho, o maior recuo em 16 meses. Desde 2023, o país perdeu mais de 240 mil empregos formais no setor privado, enquanto a União Industrial Argentina (UIA) aponta que aproximadamente 90 mil empregos foram eliminados na indústria desde agosto de 2023.
Da fábrica ao trabalho informal
O fechamento de fábricas força trabalhadores a buscar alternativas de renda cada vez mais precárias. Miguel Márquez, que passou 20 anos na fábrica de produtos químicos Clariant, em Zárate, exemplifica essa trajetória. Após o encerramento da unidade em 2025, apenas dois dos 42 demitidos conseguiram empregos formais. Os demais, incluindo Márquez, hoje com 62 anos, trabalham como motoristas de aplicativos ou em ocupações informais.
A Clariant decidiu encerrar suas operações na Argentina e passar a importar produtos de sua unidade no Brasil. Como não há restrições de importação, essa mudança se tornou economicamente viável para a empresa, aprofundando o vazio deixado nas comunidades industriais.
O debate sobre abertura econômica e competição
O governo de Milei justifica suas políticas enfatizando a necessidade de desregulamentação e abertura econômica. O ministro da Economia, Luis Caputo, argumenta que seu papel é "defender os interesses de 48 milhões de argentinos, não de determinados empresários", e defende a abertura ao afirmar que seria "imoral e injusto que os argentinos tenham que pagar por bens de menor qualidades duas, quatro, dez vezes o seu valor".
No entanto, empresários da indústria contestam essa visão. Alejandro Mayer, vice-presidente da fábrica de circuitos Ernesto Mayer, na periferia norte de Buenos Aires, observa que "ninguém quer não competir, mas também você tem que ter condições para competir". A empresa opera com metade de suas máquinas desligadas.
Obstáculos à competitividade industrial
Mayer identifica vários fatores que desfavorecem a indústria local. Existe um "atraso cambbiário" que encarece produtos argentinos em dólares. Soma-se a isso juros elevados sobre crédito e uma carga tributária que, segundo ele, torna impossível competir com produtos de países como a China, mesmo quando a eficiência é semelhante. A fábrica de cordas para instrumentos Martin Blust, que emprega dez pessoas, relata situação ainda mais crítica: fecha às sextas-feiras por falta de encomendas.
Gloria Aparicio, sócia da Martin Blust, oferece diagnóstico contundente sobre a economia: "Não há inflação porque não há compras". O comentário resume a paradoxo vivido pela Argentina sob Milei - a inflação controlada não traduz recuperação econômica real.
Pressão política e perspectivas futuras
O presidente Milei afirma que os empregos perdidos em setores tradicionais serão criados em outros segmentos capazes de competir internacionalmente. Contudo, críticos como Emmanuel Fernández argumentam que o governo está "em uma bolha", observando que "tudo o que se vê é que as pessoas que ficam sem emprego vão trabalhar nos aplicativos".
Pesquisas de opinião pública indicam mudança nas preocupações dos argentinos. Emprego e salários superaram a inflação como principal angústia para população, sinal de alerta para Milei, que tentará reeleição em 2027. Na Kioshi, funcionários pedem antecipações salariais apenas para pagar o transporte até a fábrica, demonstrando nível crítico de dificuldade econômica.
O posicionamento da União Industrial Argentina
A UIA, após apresentar suas reivindicações, recebeu resposta firme do presidente. Milei declarou que sua política de austeridade e desregulamentação "não é negociável". Martín Rappallini, presidente da UIA, contra-argumenta que "a economia não pode ser medida apenas pela evolução da inflação, temos que olhar para a atividade".
A economia argentina cresceu em 2025, impulsionada pelos hidrocarbonetos, pela mineração e pelo agronegócio. Mas essa expansão não beneficiou o comércio e a indústria, setores que afetam as grandes cidades onde vive a maioria da população. A contradição entre crescimento macroeconômico e deterioração industrial permanece como central na política argentina atual.




