Relatório 365 Dias

China reduz dependência de alimentos importados e impacta estratégia agrícola brasileira

China reduz dependência de alimentos importados e impacta estratégia agrícola brasileira
Imagem: g1.globo.com. Uso informativo; os direitos pertencem ao seu titular.

China aperta estratégia para reduzir dependência de alimentos importados

A redução na dependência de alimentos importados tornou-se prioridade máxima da estratégia chinesa de segurança alimentar. Durante mais de uma década, o presidente Xi Jinping reafirma que "a tigela de arroz do povo chinês tem que estar firme nas próprias mãos, cheia principalmente de comida chinesa". Esse compromisso reflete-se no 15º Plano Quinquenal, publicado no início de 2025 para o período 2026-2030, que estabelece metas ambiciosas para reduzir a dependência de alimentos importados e aumentar a autossuficiência doméstica.

O governo chinês traçou objetivos específicos para expandir a produção interna de alimentos dos quais o Brasil é hoje um dos principais fornecedores globais. Soja, milho e carne integram essa lista de produtos estratégicos para a independência alimentar do país asiático. As autoridades chinesas já iniciaram movimentos concretos nessa direção, como a imposição de cotas de importação de carne bovina a diversos países, incluindo o Brasil.

Metas ambiciosas do plano chinês de autossuficiência

O plano de segurança alimentar estabelece diversas frentes de ação para alcançar a independência alimentar. Entre os principais objetivos está elevar a capacidade de produção anual de grãos para 725 milhões de toneladas até 2030, partindo de pouco menos de 715 milhões de toneladas colhidas no ano anterior. Esse aumento deverá ocorrer através da ampliação da produtividade, apoiada por avanços tecnológicos como melhoramento genético de sementes e maquinário mais avançado.

Quanto aos grãos básicos como arroz e trigo, a meta é produzir ao menos 95% internamente. Para carnes bovina e ovina, o objetivo é alcançar 85% de autossuficiência, partindo dos atuais 70%. No setor de leite, a meta é aumentar de 62% para 70% de autossuficiência. Adicionalmente, o governo planeja reduzir a participação do farelo de soja na ração animal de aproximadamente 14% para menos de 10% até 2030, diminuindo a dependência de alimentos importados.

A contribuição da ciência e tecnologia no desenvolvimento agrícola também será intensificada, passando de 64% para 67% até 2030. A China reconhece que, embora possua um território maior que o Brasil, sua disponibilidade de terras agricultáveis é limitada. Grande parte do país é composta por regiões montanhosas, áridas ou desérticas. Além disso, concentra menos de 5% da água doce disponível no planeta, o que torna a busca por produtividade ainda mais crítica.

Impacto da estratégia chinesa nas exportações brasileiras

A reconfiguração da política de dependência de alimentos importados pela China gera impactos diretos no agronegócio brasileiro. Especialistas avaliam que o cenário não aponta para uma ruptura total ou queda drástica nas importações chinesas, mas sim para adaptações necessárias. Theo Paul Santana, fundador da consultoria Destino China, destaca que "o jogo dos próximos anos não é vender mais tonelada, é vender a melhor tonelada".

No mercado de grãos, o Brasil já sente as consequências. No ano passado, a China obteve uma safra recorde de milho e reduziu significativamente suas importações do cereal, de 8,4 milhões de toneladas em 2024 para menos de 4 milhões em 2025. Como resultado, as exportações brasileiras de milho para a China caíram 20,8%, segundo dados do Ministério da Agricultura.

Para soja, embora a situação seja mais favorável ao Brasil, existe preocupação chinesa com a dependência de alimentos importados. A China importou um volume recorde de quase 112 milhões de toneladas de soja no ano passado, com mais de 70% originário do Brasil. Contudo, o país intensifica investimentos em tecnologia e melhoramento genético, inclusive transgênicos, para aumentar sua produção doméstica sem ampliar áreas plantadas.

Cotas de importação e proteção do mercado doméstico

No setor de carnes, os efeitos da política chinesa já são evidentes. Em janeiro, a China estabeleceu uma sobretaxa de 55% sobre importações de carne brasileira que ultrapassassem 1,1 milhão de toneladas. De acordo com consultores do setor, esse limite foi atingido já em julho do mesmo ano. A medida nasceu de uma investigação de salvaguarda, com o Ministério do Comércio chinês justificando que a carne importada estava prejudicando a indústria doméstica.

Porém, especialistas apontam que essa cota possui limitações estruturais. A China produz cerca de 7,8 milhões de toneladas de carne bovina e consome entre 11 e 12 milhões de toneladas anuais. Esse déficit é considerado estrutural, e projeções da OCDE indicam que pode chegar perto de 4 milhões de toneladas por ano até 2032. Dessa forma, a redução na dependência de alimentos importados não eliminará completamente essa demanda.

Caminhos para o Brasil se adaptar à nova realidade

Diante do cenário de redução na dependência de alimentos importados pela China, o Brasil precisa implementar estratégias de adaptação. Uma das principais saídas é diversificar os destinos de exportação. Apenas em 2025, o Brasil abriu mais de 200 novos mercados, sendo quase 20 deles para carne bovina. Contudo, substituir parte do mercado chinês não será fácil, já que a China compra aproximadamente metade de toda a carne bovina exportada pelo Brasil.

Outra estratégia fundamental é agregar valor aos produtos. Santana enfatiza que o Brasil deve "sair da commodity pura para corte premium, produto processado e marca". Essa transformação permite ao país competir de forma diferenciada, não apenas em volume, mas em qualidade e diferenciação.

Ampliar a presença de empresas brasileiras na China também é essencial para acompanhar mudanças regulatórias e tecnológicas. Larissa Wachholz, ex-assessora especial do Ministério da Agricultura, afirma que a presença do setor privado brasileiro no país ainda está aquém da importância do mercado para o agronegócio nacional. A criação de novas oportunidades em setores como produção de combustíveis sustentáveis para aviação (SAF) e transporte marítimo também pode gerar demanda por matérias-primas agrícolas de maior valor agregado.

Perspectivas futuras da relação comercial

Apesar dos desafios impostos pela redução na dependência de alimentos importados, especialistas reforçam que a nova estratégia chinesa está longe de provocar uma ruptura entre os dois países. Os investimentos chineses no Brasil demonstram compromisso de longo prazo. A COFCO ampliou seu terminal no Porto de Santos, adquiriu locomotivas e vagões, e há um memorando para estudar a viabilidade de uma ferrovia bioceânica ligando o Centro-Oeste ao Pacífico.

"Ninguém investe em logística de longo prazo num fornecedor que pretende abandonar", afirma Santana. O comércio agrícola entre os dois países já atinge aproximadamente US$ 100 bilhões por ano. O que realmente muda é o nível de exigência, não a importância estratégica da relação comercial bilateral para ambos os países.

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